A música sempre fez parte da vida de Nenny, nome de palco de Marlene Tavares. A artista de 22 anos, com raízes cabo-verdianas, foi nascida e criada em Vialonga. “Os meus pais metiam sempre muita música lá em casa”, conta, antes de dar alguns exemplos dos estilos ouvidos: “Funaná, Cabo Zouk, Morna, Coladeira, era de tudo”. Jorge Neto, Cesária Évora, Mayra Andrade e Sara Tavares foram algumas das referências que a acompanharam na infância.
Embora a música fosse presença assídua na sua vida, Nenny não consegue especificar quando soube que “queria ser artista e realmente cantar”. No entanto, recorda-se de ver “MTV o dia todo” e adorar “ver filmes da Disney porque também tinham muita música”. “Queria cantar, decorava as letras e cantava. Achava-me uma princesa, basicamente”, recorda, sorridente.
Ainda assim, estes primeiros passos na música eram dados em privado. Em entrevista à Inforpress – a agência caboverdiana de notícias – a artista revelou que tinha alguma vergonha de cantar e que o fazia apenas no seu quarto: “Muita gente não sabia que cantava e dançava, a não ser a minha família”. Tudo mudaria quando começou a gravar os primeiros covers e a partilhá-los. Foi aí que a timidez foi desvanecendo, também graças ao incentivo de uma amiga “que a ouvia sempre a cantar”.
Estas gravações trouxeram-lhe as primeiras oportunidades no mundo da música. A primeira das quais com os Wet Bed Gang – também eles de Vialonga –, depois de postar no seu Instagram uma cover da música "Devia Ir". “Eles levam-me a estúdio e ajudaram no processo todo”, conta.
«Muita gente não sabia que cantava e dançava, a não ser a minha família»
Nenny
Os primeiros passos
As primeiras idas a estúdio tiveram lugar no verão de 2018, quando estava de férias da escola e em Portugal. Isto porque parte da juventude da artista foi passada no estrangeiro, vivendo emigrada primeiro em França e depois no Luxemburgo.
Em 2019, ocorre o lançamento de três dos seus singles "Sushi", "On You" e "Bússola", bem como a primeira atuação ao vivo no festival Sudoeste. No meio dos nervos, que atribuiu aos seus 16 anos de idade, Nenny tinha uma certeza: “Sentia que a música ia ser a minha casa”.
Ainda que Nenny tivesse já experiências em palco, uma vez que fez parte de um grupo de dança tradicional de Cabo Verde, a artista conta-nos que viver o primeiro concerto foi diferente. “Ter o público todo a olhar para ti, enquanto cantas a tua música, e seres tu a pegar no microfone traz mais pressão e o nervosismo estava mesmo à flor da pele”, explica, antes de garantir: “Mas eu consegui gerir”.
O sucesso em idade escolar
Nenny lembra-se até hoje da primeira música que escreveu. “Escrevi uma música sobre racismo, que era aquilo que eu tinha passado na escola”. Para a artista, “a música foi sempre refúgio” e ajudava-a a “lidar melhor e a ultrapassar o problema”. “Eu ouvia música, escrevia e cantava também para me ajudar a esquecer das coisas que aconteciam”, reforça.
«Sentia que a música ia ser a minha casa»
Nenny
Com as suas letras, que abordam tópicos atuais como a imigração, o racismo e a discriminação, Nenny diz que fica com esperança de “ajudar as pessoas e retribuir toda a energia” que recebe. A artista explica ainda que as suas letras são muito influenciadas pelas suas experiências de vida: “Quem ouve Nenny fica a conhecer melhor a Marlene”.
Os seus primeiros sucessos surgiram ainda em idade escolar, por volta dos 16 anos, algo que, admite, “foi difícil conciliar”. “Só queria ser uma adolescente normal, ter amizades normais e estudar”, fazendo uma revelação: “Menti para ter amigos”. Divertida, Nenny recorda que, na escola, quando lhe perguntavam “és a Nenny?”, respondia: “Não, sou a prima dela”.
Na mesma altura, surgiu a oportunidade de gravar uma sessão para o Colors, em Berlim, onde apresentou os temas "Tequila" e "Wave". Contudo, a gravação dessa sessão ia levar a que faltasse a uma semana de aulas, algo que no Luxemburgo não seria tolerado.
“Falei com a escola e disseram-me que se não fosse para representar o Luxemburgo, que eles não poderiam justificar as faltas”, explica. Sabendo que faltar uma semana poderia conduzir à expulsão da escola, Nenny decidiu realizar a gravação. “Apostei em mim”, conta, revelando que assegurou à mãe, o seu “pilar”: “Eu sei que agora pode ser difícil, mas mais tarde vai dar frutos e acho que vai correr bem”.
«Eu ouvia música, escrevia e cantava também para me ajudar a esquecer das coisas que aconteciam»
Nenny
A importância da mãe e o futuro
Quem ouve o tema "Dona Maria", percebe imediatamente a importância da mãe para Nenny. Na música, a artista fala de uma vida que imagina para as duas, objetivo que sente estar a alcançar: “Sinto que estou a conseguir e vou conseguir ainda mais – a minha mãe é ‘casa’ e ajuda-me sempre naquilo que preciso”, afirma.
Enquanto artista, Nenny afirma que vai entrar numa fase “mais adulta”, marcada pela coragem de “falar daquilo que quer falar”. “É uma Nenny que voltou de uma fase em que se sentiu perdida, porque já não estava a gostar de fazer músicas e sentia muita pressão”, conta, explicando que esta pressão vinha “não só das redes sociais, mas da opinião de muita gente”.
Aos 22 anos, Nenny sente que existe uma mudança – “sinto cada vez mais que consegui encontrar-me e que estou a ter o autoconhecimento de dar às pessoas aquilo que sou”. Sobre o futuro, não tem dúvidas. “Eu vou cantar, eu vou dropar, eu vou ser rapper, eu vou ser cantora”, conta, antes de concluir: “Mas, para além disso, eu vou ser artista”.






