Pode explicar-nos a lenda associada ao seu nome?

Claro que sim. No ano de 337, fazia-se sentir um outono duro e frio. Eu, que era cavaleiro à época, estava de regresso a casa quando encontrei um pedinte no caminho. Uma tempestade neve fazia-se sentir à nossa volta. Foi então que, com a minha espada, cortei em dois o meu manto, oferecendo metade ao mendigo. Reza a lenda, lá está, que nesse momento um sol radioso começou a brilhar. Uma espécie de verão de São Martinho, modéstia à parte (risos).

 

E o que é que isso tem a ver com castanhas?

Bem, isso é uma excelente questão. É preciso ver que o Dia de São Martinho é festejado um pouco por toda a europa e que as celebrações variam de país para país. Na Suécia, por exemplo, come-se ganso assado, imaginem (risos). De facto, em Portugal, há a tradição da jeropiga, da água-pé e das castanhas – uma tradição que penso que já existia nas comemorações do Dia de Todos os Santos. Eu nem gosto muito de castanhas. Prefiro um bom faisão. É um gosto que ficou dos meus tempos de caçador, quando era soldado do império romano, antes de ter escolhido a vida eclesiástica.

 


«Eu nem gosto muito de castanhas. Prefiro um bom faisão. É um gosto que ficou dos meus tempos de caçador, quando era soldado do império romano, antes de ter escolhido a vida eclesiástica»


 

 

 

Há também vários ditados com o seu nome, em Portugal. Um deles tem a ver com vinho…

Ah, sim. “No dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”, não é? É um provérbio bastante ligado às características de Portugal, um país com muitas adegas, como sabemos. Aliás, entre provar o vinho, beber jeropiga e água-pé, o Dia de São Martinho em Portugal pode ser uma coisa perigosa (risos). É melhor comer mais qualquer coisa do que só castanhas. Um faisão, por exemplo. Mas a verdade é que sou também santo padroeiro dos produtores de vinho, entre outras profissões. Portanto, faz sentido a associação.

 

Entre outras profissões? De quantos ofícios é padroeiro?

[entusiasmado] Ui! Portanto, sou padroeiro dos mendigos, por razões óbvias. Também por razões claras sou padroeiro dos cavaleiros e soldados. Não deixa de ser curioso que sou padroeiro dos curtidores, peleteiros e alfaiates. E esta? A verdade é que cortei o manto ao meio com uma técnica irrepreensível, devo dizer! E efetivamente vesti alguém (risos).

 

Outra das lendas associadas é o verão de São Martinho…

[interrompe] Deixem-me interromper para dizer que estou algo farto de ser responsabilizado pelas ocasiões em que esse verão não se concretiza. Quer dizer, estamos em novembro, estão à espera de quê? E países como Portugal e Itália nem têm muitas razões de queixa. No Reino Unido, a expressão “verão de São Martinho” também existe. Agora tentem fazer com que não chova durante três dias em Londres. [silêncio] Pois, acho que está tudo dito.