No dia 17 de setembro, o reitor da Universidade de Coimbra (UC), Amílcar Falcão, anunciou que esta instituição de ensino superior vai eliminar o consumo de carne de vaca nas suas cantinas universitárias, a partir de janeiro de 2020. A decisão, explicou, vai no sentido de tornar a Universidade de Coimbra "a primeira universidade portuguesa neutra em carbono". O maior impacto da medida, acrescentou o reitor, passará pela "consciencialização das pessoas para o problema [da emergência climática]". 

Qual a relação da produção de carne de vaca com o aquecimento global? A principal razão para esta ligação encontra-se no próprio sistema digestivo dos ruminantes. De forma a poderem processar certos alimentos de origem vegetal, estes animais possuem um estômago com várias câmaras (ou rúmen), onde ocorre o processo de fermentação entérica. Como resultado, há libertação de metano (um gás com forte efeito de estufa), tanto na forma de flatulência como através dos dejetos.

Os níveis de Metano e Dióxido de Carbono têm aumentado, ao longo das últimas décadas (ver gráfico). De acordo com a plataforma Earth System ScienceData, cerca de 60% do total de metano na atmosfera tem origem humana, com os restantes 40% a serem originários de processos naturais. Um terço do metano, por exemplo, provém de ecossistemas húmidos (como, por exemplo, pântanos).

 


 

Do ponto de vista mundial, a produção animal é responsável por 14,5% do total das emissões de gases com efeito de estufa com origem na atividade humana, revela a FAO (Organização para a Alimentação e Agricultura das Nações Unidas).

Dentro deste valor, acrescenta a mesma fonte, a criação de gado bovino é responsável pela maioria das emissões, representando 65% do total (41% dizem respeito à produção de carne, 20% são relativos à produção de leite).

Desta forma, feitas as contas, no contexto do total das emissões a partir da atividade humana, a produção de carne de gado bovino é responsável por cerca de 6% do total das emissões de gases com efeitos de estufa. Já a produção de leite fixa-se em cerca de 3%. Em comparação, de acordo com relatórios como o da EPA (a agência de proteção ambiental dos Estados Unidos) o setor dos transportes é responsável por 14% das emissões em todo o Mundo, enquanto o da Indústria é responsável por 21%.

 

 

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Os números avançados pelo relatório Climate Change and Land (elaborado pelo painel internacional para a mudança climática que venceu um Prémio Nobel da Paz em 2007) parecem indicar uma tendência de redução, uma vez que, no total acumulado desde 2000, a criação de gado (não apenas de bovino) é responsável por 33% das emissões globais de gases com efeito de estufa. O continente asiático é o principal responsável por este número (37%), seguindo-se a América do Norte (26%). Na Europa, o número fixa-se nos 8%, com os autores a destacarem uma “tendência leve de redução” (<1% ao ano).

Ainda sobre o panorama Europeu, a Agricultura é responsável por 10,1% do total de emissões, de acordo com os números avançados pelo Parlamento Europeu. Em comparação, o setor da Energia é responsável por 78% do total de emissões, seguido do setor de processos industriais (8,7%) e de gestão de resíduos (3,2%).

 

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Como reduzir a pegada?

Num relatório recente, o IPCC deixa recomendações para mitigar o efeito da fermentação entérica, no âmbito da atividade agrícola: melhoria das dietas dos animais (mais fáceis de digerir), utilização de suplementos e aditivos (que reduzam a emissão de metano através da mudança microbiológica do rúmen) e práticas de gestão animal e reprodutiva (melhorando a componente genética).

Estas são medidas que já estão a ser implementadas em Portugal, garante o Secretário-Geral da Associação Portuguesa dos Alimentos Compostos para Animais (IACA), Jaime Piçarra. “Não acordámos agora”, realça, salientando que os agentes do setor agrícola e pecuário “são os primeiros interessados num mundo sustentável e biodiversificado”: “Estamos todos de acordo quanto ao facto de não existir um Planeta B”.

 

 

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De resto, como é visível nas conclusões do IPCC, a alimentação animal é um setor estratégico para se alcançar um caminho de sustentabilidade. Como tal, realça o secretário-geral, os produtores apostam, hoje em dia, em vetores como a nutrição de precisão (que permite mitigar a emissão de gases e combater o desperdício), a compra de matérias-primas locais (e sustentáveis do ponto de vista ambiental e social) e o aproveitamento dos excedentes de outras indústrias (mais de um terço das matérias-primas são provenientes da indústria agroalimentar).

Recentemente, a IACA aderiu ainda ao Projeto PEFMED – uma metodologia internacional aprovada pela Comissão Europeia e que define como objetivos “mitigar impactos ambientais, reduzir o desperdício e contribuir para a redução da emissão de gases com efeitos de estufa”. Nesse sentido, salienta Jaime Piçarra, a Ciência e a organização do próprio setor serão fundamentais: “Não ignoramos os impactos – a atividade  pecuária é responsável por 14,5% das emissões de gases com efeitos de estufa e estamos a assumir a responsabilidade perante esse peso”.

Uma responsabilidade que tem já consequências. “Temos vindo a reduzir o impacto”, conta, ilustrando com um exemplo recente: “Na semana passada, por exemplo, organizámos um evento onde foi apresentada uma solução que, através da dieta dos animais, poderá reduzir entre 20 a 30% as emissões de metano”. Destaca ainda um dado: "em todos os estudos, a produção agropecuária é vista como parte da solução e não como parte do problema”.

 

 

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Por essa razão, Jaime Piçarra critica a medida da Universidade de Coimbra, considerando “que não é uma decisão justa” – “As políticas devem ter uma base científica e não uma base fundamentalista. Uma coisa é chamar a atenção para certos consumos, outra é diabolizar determinados setores ou animais”.

“A mudança terá de ser global”, sublinha ainda, destacando a importância de se olhar para a pegada de todos setores de atividade e de todos os blocos mundiais implementarem mudanças à mesma velocidade, evitando discrepâncias competitivas entre mercados. “Há a consciência que temos de mudar todos. Já estamos a fazê-lo e é neste caminho que queremos prosseguir”, conclui.


Um setor com "um balanço positivo”

Se está demonstrado cientificamente que as vacas libertam metano, começa por destacar o Secretário-Geral da Confederação dos Agricultores de Portugal (CAP), Luís Mira, “está também demonstrado que, no sistema produtivo agrícola, o balanço [carbónico] final é positivo”. É por essa razão, reforça, que em Portugal existe um programa do Fundo Português de Carbono que presta umacompensação financeira às pastagens pela retenção de carbono. “É o setor agrícola o que mais contribui para a retenção de carbono”, reforça.

Por essa razão, para Luís Mira, a decisão da Universidade de Coimbra é “incoerente”. “O roteiro para a neutralidade carbónica não passa pelo fim das vacas”, destaca, sublinhando que a questão das emissões provenientes da atividade agrícola e pecuária “é a mais pequeno e a mais fácil de solucionar”. “O mais complicado é o tipo de vida que se leva, nomeadamente nas cidades, com os consumos de combustível ou a importação de bens alimentares, por exemplo”, completa.

 

 

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A medida da UC, acrescenta Luís Mira, “transmite a ideia errada de que eliminar da carne de vaca é a resolução do problema”, sublinhando o secretário-geral da CAP dados que considera ilustrativos. De acordo com a agência para a Agricultura Internacional dos Estados Unidos da América, desde 1960, o número de cabeças de gado bovinas no Mundo cresceu cerca de 35%. Em comparação, o número de automóveis aumentou 565%, entre 1960 e 2002, de acordo com um estudo da Universidade de Leeds. “O problema das emissões de gases com efeito de estufa não está nas vacas”, garante.

A resposta para a fatia do total de emissões oriundos do setor agrícola, de acordo com Luís Mira, passa pela Ciência, com a investigação de aditivos que, “quando administrados, reduzem a emissão de metano”. O setor agrícola, realça ainda, “será o mais afetado pelas alterações climáticas”. Por essa razão, conclui, “todos os agricultores estão preocupados com esta situação” e empenhados "em encontrar soluções científicas para resolver a situação".