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Estudantes de todo o Mundo trocaram hoje a sala de aula pelas ruas, durante a greve estudantil pelo clima. Em Lisboa, milhares caminharam até às escadas da Assembleia da República.

À medida que milhares de jovens enchem a Praça de Luís de Camões, um grupo mais pequeno de estudantes ensaia palavras de ordem, junto à estátua do poeta. Por vezes, consultam o telemóvel, escolhendo as frases que serão ditas ao megafone. “Mudar porquê?”, perguntam. A resposta chega em coro: “Não há planeta B”.

Alguns minutos depois, começa a caminhada até à Assembleia da República (AR), em Lisboa. É então que um dos estudantes envolvidos na organização da greve estudantil pelo clima em Lisboa, João Zoio, revela à FORUM estar surpreendido com a adesão. “Esperávamos cerca de 500 pessoas”, conta o estudante. Mais tarde, já nas escadas da AR, partilha a sua estimativa: “no pico do protesto, estiveram reunidas mais de 6000 pessoas”.

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De acordo com o estudante, este é um sinal de que “a juventude está desperta”. Decisivo, para João Zoio, é também o facto de este ser um movimento internacional, uma vez que “a mudança terá de ser global”. Em Portugal, 26 localidades associaram-se a esta greve. De igual forma, os protestos espalharam-se pelo Mundo – mais de 100 países planearam e concretizaram ações.


O Pikachu surpreendido

O movimento de greve estudantil pelo clima começou com a estudante sueca Greta Thunberg e um cartaz. Cerca de meio ano depois, em Lisboa, milhares de estudantes empunharam dezenas de cartazes. Para além de palavras de ordem e ilustrações – presenças habituais em manifestações – eram visíveis memes como o suprised Pikachu [Pikachu surpreendido]:

Políticos: *não fazer nada em relação ao aquecimento global*
Aquecimento global: *acontece*.

Para outra das estudantes envolvidas na organização, Sofia Oliveira, esta é também “a marca de uma geração”. “Vivemos na meme culture e esta é uma forma de comunicar [eficiente], porque são mensagens que viralizam”, destaca a estudante de 19 anos. Também uma das líderes do movimento em Portugal, Matilde Alvim, de 17 anos, concorda que esta é pode ser uma forma de tornar a mensagem mais eficaz. “Somos um movimento sério e tem de haver um equilíbrio entre a seriedade e a sátira – que é importante”, acrescenta.

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O papel das redes sociais na mobilização dos estudantes também foi destacado por vários participantes. Uma comunicação que, revela a organização, foi complementada com presença física nas escolas, com cerca de duas dezenas de palestras realizadas com o apoio da associação ambientalista Climáximo. “Acho que [as palestras] foram muito importantes”, considera Matilde Alvim, lembrando que “nas redes sociais, as pessoas podem achar ‘giro’ e passar à frente”. “Quando estamos a falar diretamente com as pessoas, elas sentem o apelo”, reforça.


Político mas apartidário

Foi cerca de um mês antes da greve que João Pacheco conheceu o movimento. “Vi uma story, no Instagram de uma amiga, informei-me e vi que estava de acordo com as ideias”, recorda. A partir daí, enviou um insta direct, dando conta do seu interesse em apoiar a organização.

Como resultado, integrou um grupo do Whatsapp com estudantes que coordenaram a greve em Lisboa. Foram realizadas reuniões para pensar a comunicação e outros pormenores relativos a este momento. Quando João entrou, o grupo tinha 30 pessoas. Hoje, tem 120. Deste conjunto de estudantes locais, há dois representantes num grupo nacional.

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De megafone em punho, entre palavras de ordem, o estudante define as linhas do movimento: “Este é um movimento político e apartidário e vai ser sempre”. Nos cartazes, são visíveis críticas a António Costa ou a Marcelo Rebelo de Sousa. Contudo, ressalva João Pacheco, a lógica não é a de “um ataque ao sistema”, pretendendo “encontrar o consenso, de forma a garantir a sustentabilidade da Terra”: “A principal prioridade do Governo é a economia. Nós queremos que seja o planeta. Porque sem planeta, não há economia”. 

 

A principal prioridade do Governo é a economia.
Nós queremos que seja o planeta. Porque sem planeta, não há economia"
João Pacheco, Estudante


Um primeiro passo (e os seguintes)

Nas escadas da Assembleia da República, Aloísio Baldé procura fazer ouvir a sua voz. Depois de lhe ser emprestado um megafone, diz aos que o rodeiam: “temos de lutar por um futuro melhor”. Aloísio veio de Loures, da ES Dr. António Carvalho Figueiredo, por “reconhecer que é necessário mudar”. “Este é o primeiro passo para chegar aos jovens e a toda a sociedade”, realça o estudante de 17 anos.

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Na mesma área, duas estudantes do 8º ano empunham um cartaz. Matilde, de 14 anos, diz que, para a decisão de se juntar ao protesto, “bastou ouvir o discurso da Greta Thunberg”. A seu lado, Francisca diz que este momento “pode fazer as pessoas abrir os olhos”. A mesma opinião é destacada por Daniela Ferreira, estudante do Ensino Superior: “Os adultos vão poder perceber que, se os seus filhos e netos estão preocupados com o clima, eles deverão preocupar-se também”.

Foi ao início da tarde que os estudantes começaram a desmobilizar. Vários membros da organização abraçam-se com alegria. “Ganhámos uma batalha mas a luta não está ganha”, salienta Matilde Alvim, antes de concluir: “Foi, sem dúvida um primeiro passo importantíssimo. A partir de agora, vamos organizar-nos, para saber como dar continuidade a este movimento”.

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28 Março 2019

Estudantes de todo o Mundo trocaram hoje a sala de aula pelas ruas, durante a greve estudantil pelo clima. Em Lisboa, milhares caminharam até às escadas da Assembleia da República.