Diogo Piçarra: "Muito do que sou hoje deve-se ao meu curso"

  

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Numa conversa que passou pelo seu percurso enquanto estudante, Diogo Piçarra revelou à Forum o caminho que espera ainda percorrer, salientando a importância de 2017 na sua carreira: “foi um dos melhores anos da minha vida enquanto músico”.

És um dos embaixadores portugueses do Programa Erasmus. Como descreves a tua experiência durante esse programa, na República Checa?
Fazer Erasmus foi uma experiência enriquecedora. Foi um ponto de viragem, porque deixei de ser o Diogo mais tímido e sem muita confiança. Foi quando saí pela primeira vez de Portugal, viajei de avião, vivi sozinho... Cresci imenso nessa experiência e, tendo em conta a visibilidade que tenho, junto dos mais jovens, aceitei imediatamente o convite para ser embaixador. 

Na altura, deixaste a banda que tinhas – os Fora da Bóia…
Por causa do Erasmus, sim. Tinha essa banda, na altura, que ia fazer quatro anos de existência. Eu queria sair de Portugal, fazer o programa Erasmus e era o meu último ano de faculdade. Foi esse o meu ponto de viragem: quando voltei estava sozinho, sem banda, e foi o início da minha carreira a solo. Comecei a colocar vídeos na internet e a cantar sozinho, pela primeira vez.

À imagem da experiência Erasmus, sentes que a experiência no curso superior também te ajudou?
Fazer um curso de Línguas e Comunicação, ajudou-me muito a saber estar e falar em público. Muito da pessoa que sou hoje deve-se ao meu curso. Por outro lado, aprendi muito sobre a origem da nossa língua e sobre qual o significado que damos às palavras. E isso ajudou-me, do ponto de vista da minha capacidade de expressão.

E relativamente aos tempos do Ensino Secundário. Alguma coisa que recordes com maior ênfase?
Foram tempos um bocadinho atribulados, do ponto de vista da minha autoestima. Era um rapaz um bocado tímido e pacato, que raramente saía de casa. Estava sempre agarrado ao computador, a tentar fazer música. Também tive muitos problemas de acne e não me sentia nada confiante. Tive apenas uma namorada e, se calhar, era porque tocava guitarra (risos). Até que quis mudar: alterei a minha alimentação, comecei a fazer mais desporto e comecei a cuidar melhor da minha pele. Hoje em dia, quando vou às escolas com o projeto Diogo Piçarra em Pessoa, vejo miúdos que me parecem ser eu, nessa altura. Apetece dar um empurrãozinho e dizer: “tem calma que isso passa!” (risos).
Referiste o “Diogo Piçarra em Pessoa”, um projeto que envolveu a edição de um livro baseado nos poemas dos heterónimos de Fernando

Pessoa e concertos nas escolas secundárias. Ainda continuas a fazer esses concertos?
Continuo. O projeto já tem dois anos e tenho alguns concertos marcados para o novo ano letivo. Existe também apenas o projeto de fazer um novo livro, com outro autor que não o Fernando Pessoa. É uma forma de estar presente na vida dos estudantes, não só com a música, mas também com a literatura. Não me considero nenhum escritor nem nenhum poeta – este é mais um livro escolar e educativo do que romântico. É muito bom fazer parte da vida das pessoas dessa maneira.

Falando da tua agenda, tiveste um ano muito intenso com mais de 70 concertos. Como é que te adaptaste a essa vida “de estrada”?
Adaptei-me bem, mas também me preparei: entrei no ginásio em novembro, por saber que vinham aí muitas noites mal dormidas. A voz, felizmente, nunca falhou. Mentalmente, já estava preparado: este disco que fiz [Do=s] foi um disco mais mainstream, mais comercial e o objetivo era mesmo esse – fazer mais concertos, chegar a mais pessoas com a minha música e chegar a mais faixas etárias também.

Creditos Arlindo Camacho

 

Numa entrevista, referiste que gostas de compor enquanto estás “na estrada”. Quer dizer que já estás a trabalhar no próximo disco?
Já tenho uma pequena pasta com algumas maquetes, mas ainda há muita coisa para fazer antes desse terceiro disco. Queria que fosse especial – como todos os discos são. E não queria “encher” as pessoas de música. Acho que, se estiveres sempre a “dar” música, as pessoas fartam-se de ti. Tem de haver também um certo desejo do público: ouvir o “então Diogo, nunca mais lanças nada?”. É importante haver uma pequena pausa antes do terceiro disco, para ser algo em grande, como este segundo.

Essa pausa é um equilíbrio difícil?
É. A tua única forma de sustento são os concertos e, se não lanças discos, também não tens concertos. Por isso, quereres parar, para descansar a cabeça e os ouvidos das pessoas, de certa maneira, também faz com que desapareças. Felizmente, tenho a sorte de poder compor para outros artistas, enquanto tiver essa pausa.

Há pouco referiste que, na passagem do primeiro disco para o segundo, a aposta foi fazer um som “mais comercial” que “chegasse a mais pessoas”. Tens alguma ideia do que queres para o terceiro?
Tenho uma ideia… mais simples, se calhar. Gosto muito das origens, de como tudo começou. Talvez seja essa a primeira premissa. Também tenho aquelas “maluquices”, que às vezes até saem bem – como no “Dialeto”, em que inventei o “bye bye bye” e caiu no gosto das pessoas. Mas, depois, gosto das origens, das baladas e das grandes músicas, para as pessoas cantarem. Durante os concertos, o que noto é que o público adora cantar, gritar ao mesmo tempo que tu as palavras que escreveste. É esse o ponto para que quero ir novamente.

Diogo Piçarra - Capa dos

Antes do lançamento do Do=s, referiste que a passagem do primeiro para o segundo disco era muito difícil. Agora que o segundo disco já é uma realidade, como avalias o seu sucesso?
Não estava à espera. É normal que o primeiro disco corresponda à expectativa, devido ao fator surpresa. Há musicas que não são grandes singles mas que, como é a primeira vez que as pessoas estão a ouvir a tua voz, resultam. Achava que o segundo disco não ia correr bem. Só que, depois, não sei se foi a boa promoção, a ajuda da equipa da Universal, todo o simbolismo à volta do “dois”, a capa também está muito bonita… Este disco teve uma boa junção de fatores. Hoje, posso dizer que foi um dos melhores anos da minha vida enquanto músico. Nunca tinha dado tantos concertos e todos eles estavam esgotados. E foi um ano que me permitiu chegar aos Coliseus. Foi uma boa surpresa mas também é sinónimo de muito trabalho. Esforcei-me imenso para fazer boas músicas e ainda hoje não acredito. Claro que as pessoas à minha volta dizem “eu disse-te que ias conseguir”. Mas agora é fácil (risos).

Relativamente a esses concertos nos coliseus do Porto (27 de outubro) e de Lisboa (3 de novembro), referiste, numa entrevista recente, que seriam concertos “diferentes”. Porquê?
Normalmente, os convidados aparecem apenas em ecrã e vou poder tê-los em carne e osso comigo. Também podem existir algumas surpresas: música nova, convidados especiais... E vou poder cantar músicas do disco antigo que me pedem – e que também adoro – mas que, normalmente, não é possível cantar. Vão ser dois concertos muito especiais e dedicados aos fãs.