Já quis ser astronauta, médico, arquitecto e advogado, mas foi na publicidade que Edson Athayde singrou profissionalmente, tornando-se conhecido entre os portugueses com o anuncio televisivo sobre telemóveis que mostrava um pastor rodeado de ovelhas que atendia um telemóvel dizendo “Tou xim? É p’ra mim?”.
Em entrevista à FORUM ESTUDANTE, Edson Athayde aproveitou para revelar ainda algumas curiosidades sobre o seu primeiro romance – “O rapaz dos retratos eternos”.
Beatriz Lobato (BL): Qual foi o tema publicitário que mais gostou de trabalhar?
Eu gosto muito de trabalhar causas públicas, ou seja, campanhas que não sejam necessariamente para vender um produto, mas para vender uma ideia e mudar o comportamento das pessoas em relação a algo que seja útil para a sociedade. Apesar de ser um trabalho não remunerado – porque não são essas coisas que dão dinheiro – ao longo da minha carreira, estive envolvido numa série de projectos relacionados com a SIDA, a doação de órgãos, a dádiva de sangue, aqueles problemas graves todos entre Timor e a Indonésia… Diria que isso é o que eu acho mais interessante da minha profissão: poder usar a nossa capacidade técnica de comunicar e persuadir pessoas e tentar persuadir, não digo toda a gente, mas algumas pessoas em relação a algo positivo.
Na área comercial, há um período muito específico da minha carreira que eu destaco como sendo muito importante, que foi quando eu mais do que publicitário, mas também enquanto publicitário, fui profissional de marketing – trabalhei com a Lusomundo e o grupo que detinha o Diário de Notícias, o Jornal de Notícias, a TSF… Num projecto largo que durou alguns anos para remodelar, relançar e requalificar essas marcas e produtos e foi um período muito ‘exitoso” e muito divertido também – porque acho que é muito importante uma pessoa se divertir com o que faz. Também lidei com uma coisa que para mim é mesmo muito relevante que são os meios de comunicação, os jornais, tentando fazer com que esses produtos fossem melhores, mais bem recebidos pelos leitores e pela sociedade como um todo. Isto foi há mais ou menos 10 anos…
BL: Em Portugal muitos são aqueles que o conhecem como sendo o autor do famoso anúncio a telemóveis em que um pastor atendia e dizia “Tou xim? É p’ra mim?”. Imaginava na altura que este anúncio iria ter tanto sucesso?
Esse anúncio tem exactamente 13 anos… E provavelmente a maioria dos leitores desta publicação não fazem a mínima ideia do que é, a não ser no Youtube, o que não deixa de ser curioso que alguém se tenha dado ao trabalho de postar isto no Youtube (risos). Qualquer peça publicitária tem um tempo limitado de vida e é para vender alguma coisa naquele momento. Quando acontece ela ultrapassar isso, é porque de alguma maneira a sociedade a ‘curtiu’ e eu, enquanto publicitário, fico agradecido, mas não é o meu objectivo de vida, não é a minha profissão fazer coisas que sejam perenes. Às vezes as pessoas perguntam “Ah, mas não há outras campanhas suas que fizeram imenso sucesso?” e eu respondo que “sim” e que foram graças a Deus esquecidas. Foram importantes, mas foi naquele momento e ajudaram aquelas marcas naquele momento, não mais do que isso… Se sobrou qualquer coisa – e foram algumas - eu coloco-as sempre na categoria do bónus, não mais do que isso.
Matilde Mendes Pinto (MMP): O que é para si um bom anúncio e um mau anúncio. Quer dar exemplos?
Exemplos eu não dou, porque eu não falo mal do trabalho de ninguém. E como não falo mal do trabalho de ninguém, também me dou ao luxo de não elogiar o trabalho de ninguém (risos). Mas… Um bom anúncio eu diria que é aquele que respeita a inteligência do consumidor, respeita os conceitos estéticos da sociedade, pode vir a trazer um ponto de vista de novo e interessante para as pessoas dum determinado produto ou serviço, entretém de algum jeito e emociona de alguma maneira. É um pouco mais do que um papel que aparece impresso com uma série de argumentos e um pouco mais do que um filme que passa na TV no meio de milhões de outros filmes de forma indistinta. Isso é um bom anúncio. Para uns será um anúncio engraçado, para outros será um anúncio mais emotivo, para outros será um anúncio que dá mais informações…
Um mau anúncio é fruto de um processo preguiçoso ou incompetente. Às vezes não tem a ver sequer com a capacidade técnica de quem o está a fazer, mas antes com a capacidade ou incapacidade de quem o está a aprovar ou uma desconfiança geral da inteligência do ser humano como um todo e da sociedade daquele país em específico. Infelizmente, há mais casos em que se trabalha para se fazer um mau anúncio. Às vezes o cliente quando vê um bom anúncio (que em geral, terá alguma coisa de fresco, terá alguma coisa de novo), o cliente pode dizer que o anúncio é um risco e que prefere uma coisa burra, feia e quadrada para não correr risco nenhum. Por isso é mais fácil encontrar exemplos de maus anúncios ou anúncios equivocados (que é uma outra categoria que está no meio das duas coisas) do que bons anúncios.
MMP: Tendo já feito campanhas eleitorais, acha que vender uma ideologia é o mesmo que vender um produto?
Não é a mesma coisa, mas a capacidade de persuasão é parecida. Temos de convencer alguém de algo. Eu acredito que vender uma ideologia política, vender um partido – que é até um pouco menor do que vender uma ideologia política – representa apenas uma parte de uma ideologia maior, é um pouco mais sério. Não tenho nada contra quem faz disso uma profissão, mas eu sempre consegui evitar ao longo da minha carreira trabalhar para quem eu não conhecesse ou para quem não representasse os valores que eu também advogo, até porque quando alguém vende uma ideologia ou um partido/candidato, continua a conviver com os defeitos dessa venda, digamos assim. E se ele é mentiroso, vigarista e incompetente, ele vai dar cabo também da sua vida, da vida do seu sobrinho, da sua tia ou da vida do seu vizinho e isso não é bom, direi eu que não é nada de que alguém se possa orgulhar. Para mim, esse esquema não vale e não vale, inclusivamente, a ponto de eu já não querer trabalhar nessa área – não, porque eu não acredite em ninguém – apenas porque eu acho que ou estamos muito empenhados e muito dentro disso a ponto de saber de tudo ou de muita coisa ou mais vale estar a fazer outras coisas que são mais divertidas. É por aí que eu me encaminhei nos últimos anos largos.
BL: Foi por isso que se dedicou à escrita? Cansou-se de fazer anúncios?
Eu deixo a publicidade de vez em quando. Comecei a fazer publicidade com 18 anos, tenho 44 (embora não pareça – risos) e isso significa que há mais de um quarto de século que eu me dedico a isso. Porém, até para sobreviver, para poder fazer isso, do meu ponto de vista, bem e fresco, eu paro de vez em quando. Agora tive um período de quase 2 anos que é mais um período, em breve saberei se é mais ou menos longo, pois eu nunca faço planos para mais de 6 meses. Mas sim, eu fico às vezes 3, 4 ou 5 anos ‘à tona’ enquanto publicitário, mas nunca só. Nunca tive num momento em que eu só fizesse publicidade: sempre escrevi livros, sempre escrevi crónicas, sempre estive a produzir música ou agora, mais recentemente, teatro, estudei cinema, dei aulas… E nalguns períodos da minha vida fiz isso ao mesmo tempo, o que também não é muito sensato, diga-se de passagem. Se alguém é médico, deve dedicar-se a fundo à sua especialidade. Se trabalha com publicidade, deve dedicar-se a fundo à comunicação, que é uma coisa bem maior e bem mais larga do que a publicidade. Possivelmente, assim poderá conseguir guiões de anúncios de televisão mais bem escritos, mais bem filmados, mais pertinentes, textos de anúncios de imprensa mais interessantes de serem lidos, porque a pessoa está a dedicar-se a desenvolver outras áreas correlatas à publicidade.
Sofia Nunes (SN): O Livro “O rapaz das fotografias eternas” marca um novo rumo a nível profissional, visto que é o seu primeiro romance?
Quisera eu que nalgum lugar do planeta, fora os EUA, talvez, alguém pudesse viver da escrita. São mesmo poucas as pessoas que fazem isso e, em geral, sem também achar isso errado ou mau, com objectos literários de consumo, que não é bem a minha seara. Este é o meu 8º livro, entre outros livros anteriores de contos, de crónicas, de publicidade… Mas este foi o primeiro que eu quis encetar, em vez de fazer mais um livro de contos disse para mim: “vou querer escrever uma narrativa longa, que é talvez a coisa que eu tenho menos exercitado”, porque todas as outras actividades mexem com narrativas curtas. Então quis pôr-me à prova, mas na verdade é que não foi intencional. Quando me sentei para escrever o guião de uma longa metragem - porque eu tinha acabado de fazer vários cursos de cinema em Los Angeles e eu tinha definido que agora ia tirar um período de retiro para escrever o que tinha já delineado como sendo o fio da história - sentei-me para escrever essa longa. Ao fim de uma hora de trabalho, cheguei à conclusão de que não era mais uma longa, mas sim um romance. O que eu queria escrever era um romance e não um guião. Foi aí que nasceu o livro.
FORUM ESTUDANTE (FE): O que é que podemos esperar do livro?
Vou falar especificamente para os dois públicos principais da FORUM ESTUDANTE: se se tratar de um jovem e até não liga muito a literatura, porque infelizmente acha que os livros são chatos e já basta aqueles que são obrigatórios na escola, acho que é um bom livro para se começar a gostar de ler, porque não é um livro fácil, no sentido de que não é uma ‘bobada’ - não houve intenção minha de fazer um livro que fosse descartável, pois já existem outros livros no mercado descartáveis… Não é um livro chato, é denso a ponto de se começar a ler e não se querer parar de ler. É um exercício de escrita criativa interessante e para quem é jovem tem uma coisa que eu acho ‘curtida’ que é ter como um dos temas principais do livro os conceitos do que é transitório e do que é perene, do que é que é uma fase da sua vida e o que é que é a sua consequência, do que é a realidade e do que é sonho…. As coisas estão escritas de um jeito bastante cinematográfico, muito divertido e que dá para rir (não é um livro de humor, mas dá para rir).
Para os professores, é interessante, porque é uma forma de contactar com um tipo de livro que talvez seja fácil de recomendar aos seus alunos, porque trata a língua portuguesa com muito respeito. Há um trabalho de ourives, há uma linguagem trabalhada, de linha em linha, de palavra em palavra e de um jeito que é curioso. A língua portuguesa tem essa coisa ‘bacana’ que é poder usar 20 palavras diferentes para dizer a mesma coisa e eu dou-me a esse trabalho de tentar escrever de um jeito em que não há as repetições desnecessárias. Acho que é interessante ler, sabendo que não é de todo um Saramago ou um Lobo Antunes, nem é a minha pretensão, mas que pode ser um livro interessante para quem tem menos de 30 anos.
SN: Qual foi a principal inspiração para a escrita do livro?
Foi a primeira pessoa que eu conheci mal cheguei a Portugal. Mal saí do aeroporto, fui para a Pousada de Juventude e encontrei uma pessoa que estava na porta. Ele contou-me um bocadinho do que fazia em Portugal – que eu não posso contar muito, porque senão vou revelar e eu passo 250 páginas do livro a contar o que ele faz… Mas que eu defini na minha cabeça como sendo fotografias eternas. Trata-se de um acidente de viagem de há 20 anos atrás e da primeira pessoa com quem eu conversei quando cheguei a Portugal.
SN: Sente-se realizado a nível profissional?
No mínimo, sou uma pessoa que deveria reclamar pouco da vida (risos). Acho que sim, acho que me sinto realizado. Acho que atingi vários objectivos aos quais me tinha proposto quando era muito jovem, ultrapassei outros tantos, sustento-me e, aparentemente, consegui fazer isso sem fazer mal a muita gente (risos) – a tentativa era sem fazer mal a ninguém. Espero ter conseguido, mas pode ser que uma ou outra pessoa não tenha ‘curtido’ tanto a minha existência. Para mim a realização é isso: é estar sempre à procura de qualquer coisa que seja um desafio e que se consiga fazer bem. Além do mais, com isso, conseguimos o nosso sustento de maneira honesta para vivermos como todos os outros seres humanos e sem incomodar muito. Nunca desejei ser nem milionário nem gestor do ano, no sentido de ser um pulha e tratar mal os funcionários e ser uma pessoa detestável. Nunca quis ser vilão de filme nenhum, então acho que não tenho razões de queixa.
SN: Qual é a sua relação afectiva com Portugal?
Chamar de relação até já é menos, porque isto já é uma vivência, é uma existência. No fundo, entre idas e vindas, eu estou no país há 20 anos. Ou seja, daqui a pouco eu tenho mais tempo de vida em Portugal que no Brasil. Por mais que nos últimos anos eu tenha mantido uma relação mais pontual com o país, morando em várias partes do planeta – agora no Brasil –, em boa verdade eu nunca estou mais que 2 ou 3 meses sem vir aqui e nunca perco o contacto com o país, seja através das pessoas, do Facebook, o trabalhar para cá, o continuar a escrever para cá para publicações… A maior parte das pessoas nem sabe que eu não moro em Portugal. Todos os dias recebo mensagens de gente que quer marcar reuniões comigo. Eu tenho sempre de dizer que desejo boa sorte, mas que não estou em Portugal naquele momento.
Outra coisa curiosa é que quando eu estou no Brasil, lá eu sou português, tenho sotaque de português, o meu percurso é português e que nem tente enganá-las a dizer que sou brasileiro, porque sou português – o que não deixa de ser curioso, porque cá em Portugal eu sou brasileiro. Eu ‘curto’ esta ambiguidade e esta esquizofrenia, acho que também ajuda a tornar a vida mais interessante. Mas para terminar – a única casa que eu tenho está aqui em Lisboa, 90% dos meus amigos são de Portugal, foi aqui que eu desenvolvi boa parte da minha carreira e é quase impossível imaginar não estar aqui. E enquanto bom português, até para manter as boas relações, é por isso que eu não quero estar o tempo todo aqui, também para não ficar depressivo, como de vez em quando acontece com esta sociedade, infelizmente.
MMP: Houve algum momento na sua carreira que o tenha marcado mais? Qual e porquê?
São vários… Mas eu até diria que foram os primeiros meses que eu estive aqui em Portugal. Quando cheguei, cheguei com uma mão à frente e outra atrás e com 20 e poucos anos. Consegui logo um emprego (um empreguinho) como júnior de uma agência e, passado um ano e meio, eu já era vice-presidente dessa mesma empresa. Foi um período muito intenso e muito proveitoso, as coisas deram todas certo, parece que houve um encaixe quase absoluto entre o que eu queria fazer e aquilo que a sociedade precisava, naquele momento, do ponto de vista do discurso publicitário. Foi um período até duro – tive que inventar uma série de processos, improvisar uma série de coisas e havia ainda muito trabalho a ser feito para que a indústria publicitária em si existisse e pudesse ser o que é hoje. Eu olho hoje para trás e nem imagino como é que eu consegui. Eu tinha, como se diz no Brasil, muita ‘cara de pau’ (risos)… No início, as pessoas perguntavam por que é que eu decidi fazer aquilo e como é que eu tinha feito aquilo e eu respondia: “por que é que o cão entrou na Igreja? Porque a porta estava aberta. “ Se ele perguntasse se podia entrar não deixavam, então… A maior parte das coisas desse período eu ia entrando, ia fazendo, não pedia autorização e elas foram resultando. Corri os meus riscos, podia ter caído dessa corda algumas vezes, mas não aconteceu.
BL – O que queria ser quando era pequeno?
Astronauta. Na época havia as missões Apolo, havia aqueles super-heróis que eram astronautas e então eu também queria ser astronauta – o que no Brasil era uma improbabilidade (risos). Depois de astronauta, queria ser médico, advogado e arquitecto. Porquê? Arquitecto porque eu adorava aquelas réguas que os arquitectos usam e eu achava o máximo sair à rua e dar a entender que estudava arquitectura e que as pessoas dissessem “ah, lá vai o arquitecto”… Mas o que é certo é que eu não sei desenhar nem uma casota, não era uma coisa sensata. Advogado… Porque eu adoro até hoje filmes americanos de tribunal e fico encantado com aquela coisa da defesa, dos argumentos, do discurso… No fundo, da persuasão, só que isso era só ‘bacano’ nos filmes americanos (risos), daí que também não fosse muito sensato fazer aquilo também no Brasil. Por último, médico, por causa da idade: eu tive que escolher a minha carreira muito cedo, entrei muito cedo na universidade, com 15 para 16, o que significa que tive de escolher a minha opção na universidade de 14 para 15 e não achei que uma criança de 15 anos podia estar a dissecar cadáveres, porque não tinha a menor preparação emocional para isso. Então para isso também não fui. A publicidade apareceu quase por acidente: eu sempre gostei publicidade, sempre gostei de anúncios, de cinema, de televisão, de narrativas… E então houve uma altura em que eu optei por comunicação, mas não sabia o que ia estudar especificamente, se era publicidade ou jornalimo – eu até achei que era jornalismo, só que o jornalista ganhava muito pouco e o publicitário, naquela época, ganhava bem, ou pelo menos assim o parecia. Como eu precisava mesmo de me sustentar, achei que era mais sensato eu ir para uma coisa que estaria mais próxima do cinema e da televisão, mas em que pudesse trabalhar com a escrita – era o que eu queria – e que me permitisse pagar a renda de casa. Foi por isso que eu enveredei pela publicidade.
MMP – O que faz nos tempos livres?
Durmo (risos). Quando estou a trabalhar não há tempos livres, porque é um trabalho muito intenso, trabalho com escritórios espalhados por árias partes do mundo, por exemplo, e a semana passada apanhei 5 aviões… Daí que não tenha muito tempo livre. Mas poderia dizer que o meu passatempo é ir ao cinema… Mas fui só uma vez este mês. Ler livros? O último que eu li foi há 2 meses… Quando eu não estou a trabalhar, gosto de viajar muito, tentar morar em algum lugar que não seja a minha casa e aí sim ler bastante e conversar muito. Acho que é uma coisa de publicitário e de cronista coleccionar pessoas, coleccionar histórias, coleccionar pontos de vista e isso só se consegue se se tiver na rua, se se estiver a conviver com o outro e com o diferente, respeitando que as pessoas não são iguais, até porque é mais interessante estar com pessoas diferentes do que estar com pessoas iguais. Nos meus tempos livres o que eu faço é tentar encontrar alternativas à minha vida, ao meu ponto de vista e à minha história. Posso fazer isso com um objecto cultural, uma peça de teatro, um filme ou com uma pessoa num filme ou numa mesa do bar.
SN – Tem algum episódio caricato de que ainda hoje se recorde?Tenho uma historinha da altura em que eu cheguei a Portugal. Eu nem sabia direito que país era Portugal, não sabia o que vinha cá fazer… E mal cheguei a Lisboa, descobri que havia essa coisa chamada interrail, que eu nem sabia o que era. Então, comprei o meu bilhetinho e fui viajar pela Europa. Estive 2 meses a viajar pela Europa fora, quase 3 meses. Eu já estava quase a voltar a Lisboa e encontrei umas raparigas que eu tinha conhecido em Roma (eu tinha 24 anos, tá? Risos)… Elas estavam a voltar para Lisboa e estavam na mesma Pousada de Juventude em que eu ia ficar hospedado. Então, eu fiquei com elas e com 2 brasileiros que estavam também com elas. Acabei por ficar muito amigo desses rapazes e depois fui mais uns dias de viagem ajudando-os, porque eles nunca tinham saído do Brasil e acabámos por ir até Espanha todos. Depois, no percurso de Sevilha para Madrid o ‘pica’ percebeu que eu andava a rasurar o meu bilhete de interrail há muito tempo, ameaçou prender-me, deportar-me, tirou-me o dinheiro que eu tinha no bolso – que era metade do dinheiro todo que eu tinha… A minha vida tinha ficado de pernas para o ar… Quando cheguei a Madrid, já não queria continuar com eles, queria voltar para Lisboa, porque estava sem dinheiro e tinha de ir refazer a minha vida mais rápido do que eu imaginava. Nessa altura, os 2 rapazes que estavam lá, e que eu mal conhecia, na verdade, começaram a chorar como duas crianças e um vira-se para o outro (eram primos) e diz “Eu acho que é ele” e o outro pergunta “Tens a certeza?”, “Sim, é ele”, disse o primeiro. Eles estavam numa praça, ele abriu a mochila e tirou um bracelete e contou-me a seguinte história: “os meus pais são italianos, emigraram para o Brasil há 40 anos atrás e depois, dali a um tempo, uma amiga italiana da minha mãe emigrou também para o Brasil e a minha mãe ajudou-a muito, até que, passados alguns anos, ela voltou para Itália e, antes dela voltar para Itália, deixou o bracelete à minha mãe, ainda eu era bebé. Ela disse que um dia o seu filho (eu) iria visitar a Europa e se ele precisasse da ajuda de alguém, essa pessoa que o ajudasse mereceria ganhar esse bracelete, porque no dia em que ele tivesse esse bracelete tudo ia dar certo na vida dele”. E deu-me o bracelete, nesse dia em que eu estava a precisar de alguma formação qualquer exterior. Despedimo-nos, nunca mais nos vimos, eu voltei para Lisboa e foi histórico: numa semana eu estava contratado nessa empresa, passado um ano e meio passei a vice-presidente e tenho o bracelete até hoje, claro. Agora acho que tenho de o dar a alguém mas ainda não sei bem qual é o critério…. (Risos).
MMP – Já disse que não fala dos anúncios dos outros, mas o que é acha do tão polémico anúncio do Pingo Doce?
Não falo dos anúncios dos outros, mas a nível mais geral posso dizer que nem toda a publicidade é feita para agradar a toda a gente. Acho que há um efeito curioso da sociedade, nomeadamente derivado às redes sociais, que têm uma faceta perversa – não estou a dizer isso especificamente desta campanha… As pessoas são todas diferentes, existem gostos diferentes. Há espaço para um Tony Carreira como há espaço para U2, não são os mesmos públicos, são pessoas diferentes. Podemos dizer que um é melhor do que o outro, talvez até seja, mas não é a ‘dar porrada’ que se chega lá. Qualquer campanha pode sempre agradar a uma série de pessoas e ofender a outro grupo… Vão acontecer cada vez mais coisas dessas. Mas isso não quer dizer que essas campanhas devam ir para o pelourinho ou devam ser erradicadas. O que eu posso dizer, aí sim, é que a ambição de quem faz publicidade é que independentemente de ser um anúncio popular ou não, tem obrigação de ser bem feito e de ser bonito. Eu fiz muitas coisas populares ao longo da minha carreira, algumas delas os meus amigos publicitários basicamente detestaram – o “Tou xim” é um caso desses. A minha equipa criativa quando viu o filme, na altura, estava com vergonha e perguntou: “o que é isto? Um pastor com umas ovelhas?” Depois que foi um mega sucesso, porque foi esteticamente bem feito, foi feito com carinho e com cuidado e, curiosamente, ganhou em Cannes e foi provavelmente a peça publicitária portuguesa mais premiada de todos os tempos – se juntarmos todos os prémios que ganhou em todos os concursos publicitários. Provou-se, assim, que era uma coisa popular, mas era bem feita. Eu acho que esse é o objectivo de qualquer marca. Se a marca A ou B não tem pensado nisso, eu diria que é problema da marca A ou B, não é problema meu.
Esta entrevista foi feita por Beatriz Lobato, Matilde Mendes Pinto e Sofia Nunes, leitoras da FORUM ESTUDANTE. Contou ainda com a coordenação da jornalista Bruna Pereira.
As nossas repórteres de serviço!
Sofia Nunes
Já concluiu o 12º ano e ficou e estado de êxtase quando foi ver as colocações deste ano e confirmou que tinha entrado na primeira opção – Curso e História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Caso para dizer que História e Histórias é com a sofia, já que não teve papas na língua para fazer mais perguntas ao Edson Athayde do que aquelas que estavam previstas…
Beatriz Lobato
Estuda na Escola Secundária 2,3 Manuel da Maia (Lisboa) e foi uma das 20 finalistas do FORUM MUSIC CAMP, iniciativa da FORUM ESTUDANTE que revelou uma série de talentos sub-18. Ou não fosse ela dona duma bela voz, a Beatriz impressionou o Edson, sendo logo a primeira a fazer perguntas!
Matilde Mendes Pinto
Estuda no Colégio São João de Brito (Lisboa) e gostou muito da experiência jornalística proporcionada pela FORUM, até porque antes da conversa com o nosso entrevistado, a Matilde adorou a viagem de táxi… Podíamos estar aqui o dia todo a citar frases do taxista, mas fica para uma próxima, sim?
Comentários (12)
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Edson Athayde é um grande homem! Tal como eu gosta do mesmo genero de publicidade. Aquela vende uma ideia e muda o comportamento das pessoas em relação a algo que seja útil para a sociedade. 

















