Alexandre Costa tem 45 anos e ensina Física e Química na Escola Secundária de Loulé! Este ano foi-lhe atribuído o Prémio Nacional de Professores (25 mil euros) – uma distinção atribuída pelo Ministério da Educação...
... aos docentes que contribuem de forma excepcional para qualidade de ensino. Além de um excelente professor e amante da Astronomia, este homem é amigo dos alunos, um pai dedicado, gosta de fazer ginástica, de praticar karaté e – imaginem – mudou de emprego e de cidade por amor!
Manuel Bárbara (MB): O que sentiu quando soube que tinha ganho o Prémio Nacional de Professores?
Senti-me muito orgulhoso, obviamente, e muito satisfeito, sobretudo porque constituiu a concretização de um processo. Mas não foi uma coisa repentina, a nomeação – começou tudo por sermos a melhor equipa da escola e uma pessoa ser indicada dentro desse lote extraordinário de professores que temos na escola já é um motivo para orgulho. Depois aconteceu a nomeação nacional, obviamente que a mesma veio concretizar e foi o culminar desse processo, portanto, fiquei muito orgulhoso por mim e pela escola, que entendeu que me devia nomear… E parece que teve alguma razão em fazê-lo (risos).
(MB): Estava à espera de ganhar?
Uma pessoa quando é nomeada para estas coisas, a partir daí habilita-se a ganhar, digo eu… Isto é um bocadinho como o Totobola ou como o Euromilhões: se uma pessoa não for candidata, se nem sequer entregou a aplicação, aí é que não ganha de certeza. Quando a pessoa é nomeada existe a possibilidade de ganhar, assim como existe a possibilidade de haver outras pessoas que mereçam mais reconhecimento por parte do júri. (…)
Marta Lopes (ML): Existe algum segredo para se ganhar o Prémio Nacional de Professores?
O Prémio Nacional de Professores só pode ser ganho uma vez na vida – aliás, eu neste momento passei a fazer parte do júri, porque não o posso ganhar outra vez. O Prémio é atribuído em função de uma série de parâmetros, nomeadamente tendo em conta se a pessoa é considerada um bom professor, em termos da sua prática lectiva, mas não só. Existe uma série de coisas que são avaliadas, nomeadamente o currículo das pessoas, a sua actividade e participação na comunidade, ou seja, muitas outras vertentes de ser professor que não são apenas a sua prática lectiva, porque seria muito difícil distinguir, porque há óptimos professores aqui na escola e que são tão bons quanto eu na prática lectiva.
Depois existe uma distinção muitas vezes que é feita também em termos da participação das pessoas na comunidade e eu penso que isso foi uma das coisas que terá pesado, porque eu tenho tido muitas actividades na escola e junto da comunidade educativa, nomeadamente ao nível da formação de professores, em que eu tenho orientado estágios há 12/13 anos: uns que são estágios integrados da Universidade do Algarve e outros que são de supervisão de profissionalizações, mais ligadas ao Instituto Politécnico de Beja. Escrevo ainda manuais escolares, tenho projectos de apetrechamento da escola, nomeadamente no âmbito do Ciência Viva, tenho tido projectos de intercâmbios com escolas estrangeiras, no âmbito do e twinning, no âmbito de intercâmbios, propriamente dito. De certa forma, já havia também um reconhecimento social prévio, porque eu fui medalha de Mérito Municipal da cidade de Beja, em 2000, e recebi o Prémio Rómulo de Carvalho para o melhor professor de Física de Portugal em 2005.
Tenho alguns reconhecimentos internacionais ainda, nomeadamente da Associação Europeia para o Ensino da Astronomia e da UNAVE, que é uma associação Internacional para a Educação de Crianças na área da Ciência. Tenho colaborado com a UNESCO – o ano passado estive a dar cursos no Equador e no Peru de formação de professores. Ao nível da União Astronómica Internacional estou a desenvolver com professores universitários de todo o mundo – acho que sou dos únicos não universitários – estamos a produzir um curso de formação de professores para utilizar em países menos desenvolvidos, em que nós possamos produzir materiais didácticos de astronomia com coisas que sejam facilmente disponíveis, seja no supermercado seja de papel… Tentar fazer tudo o que se faz quando o país é rico e tem instrumentos de alta tecnologia. E tenho livros: tenho um livro sobre o Terramoto de 1755 no Algarve e tenho um livro de contos para crianças sobre astronomia escrito em espanhol, que foi uma joint venture com professores de Espanha… E ainda dou aulas, agora já não dou poucas, porque estou aqui na Direcção e só tenho uma turma do Ensino Profissional.
(ML): Com tanta actividade extra-docente ainda sobra tempo para os amigos e para o lazer?
Neste momento, fiz uma opção de vida que foi ainda deliberada antes de receber o Prémio: tinha de mudar de vida, porque estava a trabalhar entre as 19 e 20 horas diárias e ficava com muito pouco tempo para dormir. Foi-me ainda dito medicamente que precisava de dormir e fui fechando coisas, durante algum tempo tive de concluir compromissos que tinha assumido, porque senão passava a ser incompetente. Neste momento, tornei-me selectivo no tipo de coisas que faço. Dedico-me sobretudo à escola, tenho recusado escrever manuais escolares em áreas diversas, porque me absorvem muito tempo – é preciso escrevê-los. Os únicos compromissos que ‘mantenho’, porque vêm de projectos já antigos é que faço parte da comissão executiva da Associação Europeia para o Ensino da Astronomia e sou o editor/ webmaster deles e mantenho a tal ligação ao grupo de trabalho da União Astronómica Internacional, que está a produzir aqueles cursos para os professores.
Tentei retomar contacto com alguns amigos, porque trabalhava de Segunda a Domingo, regar as amizades outra vez. Com estes cortes, reequacionei a minha vida e comecei a ter mais tempo para as pessoas e para a minha família. Nos meus tempos livres, faço alguma ginástica e voltei a praticar karaté… Mas tenho uma graduação relativamente baixa (risos).
Revista FORUM ESTUDANTE (RFE): Desde que começou a dar aulas, quais são as principais diferenças que nota entre os alunos de antes e os de agora?
Tenho para mim que os jovens não mudam: os jovens de hoje são como eram há 2 mil anos atrás. Agora, e se formos ver algumas leituras do que os professores diziam no tempo dos egípcios, há textos de pedagogos a dizerem que os jovens estão cada vez pior e há 100 anos há textos a dizerem o mesmo… E hoje igual… Eu acho que os jovens estão cada vez mais na mesma, o que muda, de certa forma, é a sociedade e os apelos que os jovens têm. Os jovens sempre foram de provocar cisões com as gerações mais antigas, é uma coisa natural, e o nosso papel enquanto professores é perceber isso e tentar dar o enquadramento apropriado à energia que os jovens têm, porque eu costumo dizer que os jovens têm um potencial de energia e de dinâmica e de imaginação que os adultos perderam. Génios como Newton e Eisntein, tudo o que eles fizeram de radicalmente novo foi antes dos 30 anos, portanto, isto é uma coisa que as pessoas não têm muita noção. O Moseley tinha 17 anos quando propôs a estrutura da Tabela Periódica. (…)
Nós vamos aprendendo muita coisa e quando se é velho sabe-se muito, mas vamos perdendo duas coisas que os jovens têm: uma é a imaginação e outra é a facilidade de arriscar. Eu quando arrisco uma ideia estou-me a expor de uma maneira que um jovem não tem medo de se expor e as pessoas mais velhas têm medo de se expor, porque já há o medo de falhar… É importante que a sociedade saiba canalizar a energia dos jovens para os sítios certos e eu tento fazer isso com os meus alunos.
(RFE): Existem situações que o tenham marcado enquanto docente?
Alunos que me dizem que não gostam da disciplina, que não querem aprender aquilo… E que no final me vêm dizer que afinal valeu a pena e que a disciplina até é ‘bonita’. É este tipo de coisas que me marca. Eu gosto de lidar com as dificuldades, acho que se a vida fosse toda fácil era bom, mas as coisas difíceis é que dão o sal à vida e aqueles alunos que não querem aprender são, de facto, o verdadeiro desafio. Eu ter um aluno que é um génio como qualquer professor não é grande motivo de satisfação para mim, se ele é bom… é-o. Agora inverter situações é o grande desafio e o que me marca nas aulas. Há alunos que me dizem: “ai desista de mim” e eu respondo: “tu podes desistir de ti, mas eu não” e às vezes isso tem feito com eu alguns mudem e eles lembram-se disso.
(RFE): O que é que vai fazer com o dinheiro que ganhou, já sabe?
(risos) Eu ainda nem sei quanto dinheiro é que ganhei…Sei quanto é o Prémio, que são 25 mil euros, agora falta deduzir impostos, o que deve rondar os 40%... Depois devo entrar no escalão de IRS mais alto… (risos) Mas para já não vou gastar dinheiro nenhum, enquanto não souber quanto é que vou pagar de impostos. Mas gostava de viajar e de mostrar o mundo ao meu filho, que tem 7 anos. Gostava de lhe incutir alguns valores, porque a compreensão do mundo passa um pouco por ir aos sítios e vivê-los, isso é uma coisa que eu tento também fazer com os alunos. Como pai, gostaria também que os professores do meu filho também o levassem a ver coisas. Conhecer o mundo é uma coisa muito importante.
Tudo por amor
Sabias que o professor Alexandre Costa saiu de Lisboa e veio dar aulas ao Ensino Secundário no Liceu de Beja porque a sua esposa era de Beja? Depois mudou-se de novo, desta vez para o Algarve, pois era lá que a sua mulher era docente. Desde 2001/02 ensina Física e Química na Escola Secundária de Loulé. Isto é que é uma prova de amor, não achas?
Os nossos repórteres de serviço!
Marta Lopes (12º G, Línguas e Humanidades)
Escola Secundária de Loulé
“É uma das alunas mais interventivas da Escola Secundária de Loulé”, segundo o professor Alexandre Costa. A Marta prontificou-se logo a ser uma das repórteres FORUM e não se saiu nada mal… Como podem ler aqui.
Manuel Bárbara (12º B, Ciências e Tecnologias)
Escola Secundária de Loulé
Com grande à-vontade, O Manuel iniciou a entrevista ao professor Alexandre Costa. Além de bom comunicador também é fotogénico, reparem só!










Boa entrevista.... 






O meu de Física e Química também é como ele