Terça-feira, 07 de Fevereiro de 2012

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Uma vida a lutar contra o desperdício

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Com um curso superior de Economia e a possibilidade de um futuro promissor na área, esta mulher optou por dedicar a sua vida a um banco, mas a um banco muito especial – o Banco Alimentar.


Em entrevista à FORUM ESTUDANTE, Isabel Jonet explica ainda a todos os interessados que “ser voluntário não é só trabalhar e graça”.

Houda Silva (HS): Para que os restantes leitores da FORUM percebam… O que é um Banco Alimentar (BA) e qual a sua função?
O Banco Alimentar Contra a Fome é uma ideia muito simples que é quase um ovo de Colombo. A ideia é ir buscar onde sobra para entregar onde falta. Ir buscar alimentos que são excedentários na indústria, na agricultura, nos supermercados e nos nossos próprios consumos pessoais. E isto porque há pessoas com carências alimentares e, portanto, é uma injustiça que alimentos que estão em bom estado e que podem ser aproveitados sejam destruídos por razões comerciais ou apenas porque as pessoas se desinteressaram daquela marca, porque houve alguns prejuízos na embalagem… Ou por outras razões quando, ao mesmo tempo, há pessoas com fome.

Aquilo que fazemos é mobilizar indústrias e mobilizar cooperativas agrícolas para nos darem aquilo que já não querem. Também, duas vezes por ano, estamos em grande acção de voluntariado nos supermercados e essa é a fase com mais visibilidade do BA – hoje em dia há 17 Bancos Alimentares que envolvem 27 mil pessoas (jovens ou menos jovens de idade), todos interpelados pelo bem-fazer e que participam na campanha.

(HS): Algo que toda a gente pergunta… O que acontece a toda aquela comida que é recolhida?
A comida que é recolhida nas campanhas vem juntar-se aos alimentos que são diariamente entregues, tanto pelas empresas como pela agricultura e as cadeias de distribuição. O que é que fazemos? Existem neste momento 17 Bancos Alimentares que cobrem quase todo o território nacional e os Bancos Alimentares não entregam nada directamente às pessoas que têm carências alimentares. O que fazem é seleccionar instituições de solidariedade social que conhecem as necessidades de cada família e de cada pessoa e são essas instituições que levam os alimentos a quem mais precisa deles. A lógica é fazer com que os alimentos não sejam apenas um fim, mas que possam ser um meio que permita a pessoas pobres mudarem de vida.

Andreia Almeida (AA): Como explica que o Banco Alimentar, em comparação a 2008, conseguisse mais 30,9% de alimentos?
Esse acréscimo tem uma dupla explicação: por um lado, nas contribuições das campanhas quem dá, quem contribui, são pessoas boas que vão às compras e que querem colaborar. Essas pessoas boas de facto são atentas à situação e sabem que não é preciso darem muito, mas é preciso serem muitos a dar para poderem fazer a diferença. Essas pessoas quando dão sabem estão efectivamente a contribuir para os pobres da sua região. E dão porque até antecipam que amanhã possam ser eles a precisar. Dão hoje, porque hoje podem e amanhã podem ser eles a precisar. Por outro lado, em anos de crise, precisamente por causa da crise, as pessoas são mais generosas, são mais solidárias e unem-se mais. E também as indústrias e as empresas têm mais excedentes de produção, uma vez que precisamente porque há crise, as pessoas compram menos e há mais excedentes na indústria.

HS: De onde surgiu o slogan "Alimente esta ideia"?
O BA precisava de uma assinatura institucional, ou seja, uma frase que fosse muito marcante, que fosse facilmente reconhecível pelas pessoas e que fosse impactante enquanto mensagem. O BA vive de diversos contributos de pessoas que dão alimentos, que dão serviços, que dão produtos, que dão trabalho e que dão dinheiro, todos com o mesmo objectivo: alimentar. O BA é esta ideia simples que precisa de ser diariamente acarinhada para podermos alimentar pessoas que têm fome.

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AA: Com um curso superior de Economia e a possibilidade de um futuro promissor numa qualquer área da mesma, sem preocupações sociais constantes, e com a possibilidade de não ter que lidar com o lado negro da sociedade… O que é que a fez abdicar disso tudo e dedicar a sua vida ao BA, desde 1993?
Eu não poderia ter tido futuro mais promissor do que aquele que encontrei aqui. Muitas vezes pensa-se que não se pode ter uma carreira como voluntário ao serviço de uma causa, eu defendo exactamente o contrário. Todas as pessoas que aqui trabalham e eu tenho a sorte de ser apenas mais uma das pessoas que aqui trabalham voluntariamente, encontraram um motivo mais forte para a sua vida e carreiras aqui no BA.
As pessoas podem ser militantes por boas causas ou por más causas. Muitos de vocês são militantes pelos Facebooks, no Counter Strike e em jogos da Wii…. É pena é ser-se militante em coisas que não têm a ver com o homem e é uma pena perder-se tempo com coisas que são virtuais, porque de facto há imensa gente que precisava dessa militância activa e mobilizada. Eu tive a sorte também de ser uma geração que militava nos partidos logo após o 25 de Abril – eu tinha 14 anos quando se deu o 25 de Abril – como militávamos na religião, como militávamos até no desporto.

Infelizmente, muitos jovens deixaram de militar e de serem agentes interventivos na sociedade, porque estão militados activamente nas novas tecnologias. Se calhar o mundo vai ser assim e eu tenho medo que o mundo seja assim, porque quando as pessoas militam sozinhas ou militam em pequenos grupos em coisas são virtuais afastam-se daquilo que é a realidade da sociedade e a sociedade é composta de homens, cada um diferente dos outros, não somos todos iguais, graças a Deus e é essa grande diversidade que faz a diferença e essa grande diversidade que faz a diferença e essa grande diversidade que faz a diferença e essa grande diversidade que faz a diferença cria muita riqueza e essa grande diversidade de diferença é o BA. O BA é composto por muitas pessoas. Umas voluntárias e outras assalariadas, de muitas idades, com muitas formações diferentes, em fases da vida diferentes, que estão unidas em torno de um objectivo de vida comum que é ajudar pessoas que têm necessidades. Esse objectivo de vida sobrepõe-se a elas próprias. É isso que faz a força do BA.

HS: Qualquer pessoa pode ser voluntária do BA?
Qualquer pessoa pode ser voluntária desde que se mobilize por uma causa. E pode ser voluntária e não é só aqui no BA, é em muitas outras actividades que vão desde a área social ao desporto, ao ambiente, a numerosíssimas actividades onde o trabalho voluntário tem sentido. Ser voluntário não é só trabalhar de graça, é muito mais que isso, é ser um agente interventivo na sociedade. O ser voluntário não é um estado de graça, ao contrário, é uma maneira de viver em que se tem a possibilidade de alguma forma de dar aquilo que sabemos fazer, na medida em que outros precisam de receber. O ser voluntário não é dar aquilo que sabemos fazer na medida em que outros precisam de receber. O ser voluntário não é dar aquilo que nós queremos, independentemente das necessidades dos outros, é dar aquilo que sabemos em função das necessidades dos outros. Sem ser invasivamente.

Aliás, o BA tem estado na origem de vários projectos, um dos quais é a ENTREAJUDA, que é um banco mas em vez de levar alimentos leva ajuda e gestão eleva competências. A ENTREAJUDA lançou em 2006 um site de Internet que é o www.bolsadevoluntariado.pt e em 2 anos tivemos 12 mil voluntários que se inscreveram no site, mas também, e muito importante, tivemos 900 instituições que foram buscar voluntários ao site. Portanto, há um encontro entre a procura e a oferta de trabalho voluntário e isso é muito gratificante, porque podemos replicar pequenos exemplos, tornando a sociedade civil mais forte.

HS: O que precisam de fazer todos os interessados em serem voluntários?
É primeiro perceber aquilo que nos motiva para ser voluntário: são boas causas ou más causas? O verdadeiro voluntário é um voluntário comprometido, é aquele que dá sem esperar receber em troca, porque quando dá já está a receber em troca. Depois é encontrar aquela instituição onde nos enquadramos melhor e que melhor se adapta ao nosso perfil: com crianças, idosos, na área social, do ambiente, na limpeza de matas, com animais… Depois, hoje em dia, há essa facilidade em ir ao site da bolsa de voluntariado e procurar a instituição mais perto da nossa casa ou onde queremos trabalhar – e isto pode ser feito em grupo, pode haver redes sociais, inclusivamente, mas que não fiquem no virtual, que passem à prática.

No caso do BA é simples, nas campanhas basta aparecer ou mandar um e-mail para o BA da sua região e no caso do dia-a-dia do BA basta aparecer aqui no armazém a dizer: “eu tenho um par de horas e quero trabalhar”.

AA: Existe algum momento especial, no âmbito da sua actividade no BA, que lhe dê força para seguir em frente, mesmo nos momentos mais complicados, que queira partilhar connosco?
Trabalhar no BA é um presente de vida. Todos os dias tenho pequenos momentos que alimentam com energia e fazem com que possa ultrapassar momentos mais difíceis ou mais trabalhosos. Todos os dias há testemunhos de pessoas que trabalham cá e que colaboram cá, que vêm buscar produtos, de pessoas que recebem os produtos e que vêm agradecer. Mas há para mim um momento que eu acho maravilhoso, entre vários outros. O BA tem na sua força de trabalho muitas pessoas que já são excluídas do mercado de trabalho – vocês são novos, estão a chegar ao mercado de trabalho, mas com o envelhecimento da população essa realidade é cada vez mais pungente – há cada vez mais pessoas mais velhas que deixam de ter lugar no mercado de trabalho, até para os mais novos poderem ocupar os postos que desempenharão seguramente com competência técnicas mais actuais.

Tivemos aqui um senhor que tinha ouvido falar do BA e esse senhor veio aqui oferecer-se para ser voluntário e esse senhor tinha 86 anos e então veio de transportes públicos do Feijó, foi recebido pelo chefe dos voluntários, foi-lhe explicado eu ele só poderia trabalhar no armazém, porque não percebia de computadores, não podia ir visitar instituições e outras tarefas, e então poderia colaborar no armazém a preparar os alimentos para serem entregues nas instituições. Ele disse: “Sim, sim, está perfeito, tenho imensa capacidade, estou ainda um menino e posso ainda carregar com imensas toneladas” – porque deste armazém saem 30 toneladas por dia, todos os dias, 30 mil quilos têm de ser preparados e, portanto, isto é um trabalho pesado. No fim daquela entrevista toda o senhor perguntou: “Posso telefonar?” E o chefe dos voluntários disse: “Pode”, mas achou que ele ia chamar um táxi ou alguma coisa assim e ele disse: “é para a minha mulher”. Ele atendeu o telefone e disse: “querida, fui aceite!” E é maravilhoso poder dizer a uma pessoa de 86 anos que ela ainda é aceite, porque as pessoas, apesar de terem 86 anos, se quiserem, ainda podem trabalhar. E um dos grandes problemas é que quando as pessoas deixam de ter lugar no mercado de trabalho, acham que se calhar deixam de ter lugar na sociedade. Esse senhor trabalhou aqui mais 5 ou 6 anos, chegou a dizer e que me dizia: “Ó Isabel, eu só saio daqui na horizontal” (que era mortal), vinha todos os dias alimentar esta ideia. Portanto, há histórias destas espectaculares.

AA: No caso de em Portugal se dar um desastre como o que se deu recentemente no Haiti, como reagiria o BA? Existe uma determinada quantidade de alimentos guardados para situações como estas nacionais ou internacionais?
Isso não é incumbência do BA, isso tem a ver com a Protecção Civil. O BA existe com uma missão muito específica que é uma ajuda de emergência e precisamente porque capta e distribui alimentos, não tem reservas de segurança de alimentos, este é um banco, mas é um banco diferente dos outros. É um banco onde os capitais não ficam, os capitais são produtos e voam, porque as pessoas têm fome e têm de ser alimentadas todos os dias. Portanto, aquilo que nós temos de fazer é ter uma grande rotação nos stocks, porque existem pessoas com carências alimentares.
Se existisse uma catástrofe, como disse, essa não era a missão do BA.

Sobre Isabel Jonet?
Maria Isabel Torres Baptista Parreira Jonet nasceu em Lisboa a 16 de Fevereiro de 1960. Licenciou-se em Economia em 1982, na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica Portuguesa. Desde 1993 trabalha em regime de voluntariado no Banco Alimentar Contra a Fome, sendo actualmente Presidente da Federação Portuguesa dos Bancos Alimentares Contra a Fome, Presidente do Banco Alimentar Contra a Fome de Lisboa e Membro do Conselho de Administração da Federação Europeia dos Bancos Alimentares. Nessa qualidade apoiou a criação dos 17 Bancos Alimentares portugueses.

É fundadora e Presidente da ENTRAJUDA, instituição de apoio a instituições de solidariedade social numa óptica de gestão e organização. Trabalhou no Comité Económico e Social das Comunidades Europeias, em Bruxelas, entre 1987 e Julho de 1993. Foi adjunta da Direcção Administrativo-Financeira da Sociedade Portuguesa de Seguros, entre Março de 1983 e Dezembro de 1986, e da Direcção Financeira da Assurances Général de France em Bruxelas, em 1987.

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E as nossas repórteres de serviços foram…

Andreia Almeida (à esquerda)
1º ano, Curso de Direito da Universidade Autónoma de Lisboa (UAL)
“Tendo já eu anteriormente colaborado com o Banco Alimentar (BA), conhecer esta ainstituição de perto e poder falar com a principal responsável da mesma foi algo muito gratificante, visto que, aprendi algumas coisas sobre o BA que não tinha conhecimento e houve até lugar para nos comovermos com algumas histórias de vida.”

Houda Silva (à direita)
12º E, Escola Secundária D. João II (Setúbal)
“Achei a entrevista um espectáculo, uma experiência muito gratificante e encorajadora, principalmente para quem quiser seguir essa área. É sempre bom vermos o que está para além das câmaras e das entrevistas escritas. Uma experiência para repetir!”

Fica aqui a entrevista em vídeo!

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Comentários (8)

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Cristiana Rodrigues
Eu sou voluntária do Banco Alimentar contra a fome, orgulho.me disso =)

Adoro ajudar que mais precisa.
Cristiana Rodrigues , Junho 29, 2010
...
elmg2006
é importante fazer algo útil para quem precisa
elmg2006 , Maio 14, 2010
:D=)
0
Eu também já participei no voluntariado duas vezes, para a próxima também lá vou estar! Até tenho um comprovativo que me enviaram!smilies/grin.gif
Laura S. , Abril 13, 2010
Excelente
0
Foi realmente uma grande entrevista.. Adorei conhecer a Houda e todos os que nos acompanharam e fomos muitissimo bem recebidos.

Beijinhos smilies/smiley.gif
Andreia Almeida , Fevereiro 28, 2010
...
Moonlightboy
olha a tal houda que dantes deixava la uns comments e agora nem isso faz :O

eu ca sou voluntario po banco e gosto muito smilies/smiley.gif
Moonlightboy , Fevereiro 18, 2010
awwwwwwww
Houda Silva
Sou eu sou eu sou eu smilies/grin.gif

Foi simplesmente, inacreditável.

Houda Silva , Fevereiro 18, 2010
...
Tatxy
Uma boa entrevista. São estas pessoas que dão valor ao mundo.
Já fiz voluntariado uma vez e queria fazer mais só que não consegui entrar em contacto com o BA da minha zona nem eles me disseram que ia haver campanha. smilies/sad.gif
Tatxy , Fevereiro 17, 2010
...
Filipa
Muito bom artigo, há realmente quem se preocupe .
Filipa , Fevereiro 17, 2010

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