Terça-feira, 07 de Fevereiro de 2012

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Escrever direito por linhas... desafiadoras

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Escrever direito por linhas... desafiadoras
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Emílio Rui Vilar, presidente da Fundação Calouste de Gulbenkian, entrevistado pelos leitores da FORUM ESTUDANTE Inês André, Ana Catarina Teixeira e Rodrigo Pereira, com coordenação de Cátia Felício


É pontual e gere o tempo com uma minúcia de fazer inveja aos mais organizados. Começa o dia bem cedo e a semana de trabalho tem seis dias, porque uma parte do fim-de-semana é para trabalhar. Tem 10 netos, um jardim, e uma agenda muito organizada, porque o tempo é precioso e tem que dar para tudo. Assim é Rui Vilar, presidente da Fundação Calouste de Gulbenkian, uma instituição perpétua que tem como base quatro áreas: Ciência, Arte, Educação e Beneficência. Mas podia dizer-se que é o homem dos sete ofícios. Conhece-o melhor com a FORUM.

 

Ana Catarina - Sente que a missão que foi definida para esta Fundação ainda se mantém, como quando iniciou este projecto? Como foi o caminho até aqui e o que ainda é preciso mudar?

O fundador era um homem com uma grande experiência do mundo e da vida e por isso apenas definiu no testamento – e está nos estatutos – as quatro grandes áreas de trabalho da Fundação: Arte, Ciência, Educação e Beneficência. Não disse muito mais. Disse apenas que a Fundação poderia exercer a sua actividade em Portugal ou em qualquer país que o conselho de administração entendesse. E acho que esta compreensão muito clara de que o mundo e a vida se transformam com o tempo, lhe terá conferido a visão de que, se tentasse definir, à priori, uma missão muito expressiva, correria o risco desta rapidamente ficar desactualizada. E por isso a missão da Fundação tem de ser definida ao longo do tempo de maneira a que possamos agir, nestas quatro áreas de intervenção, de acordo com os anseios, aspirações e necessidades das comunidades a que dirigimos a nossa acção.

 

Inês - Em termos de trabalho na Gulbenkian, qual foi a sugestão mais fora do comum que lhe fizeram?

Tenho um bom arquivo de sugestões imprevistas, mas devo dizer que, muitas vezes, essas sugestões trazem o gérmen de uma boa ideia. Recebo e analiso com atenção e cuidado aquelas sugestões que saem fora da rotina e tenho tendência a não considerar tão importantes aquelas que representam apenas “mais do mesmo”. As fundações devem, não só ter prioridades, como também ser capazes de responder aos impulsos que vêm do exterior. Muitas vezes há propostas que não esperávamos, mas algumas delas vão para a frente e recebem o nosso apoio.


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Rodrigo - Qual o segredo de tanto sucesso e como pode um jovem seguir as suas pisadas?

Acho que tive muita sorte, porque ao longo da minha vida não aconteceu a trajectória linear que teria havido se tivesse continuado a viver no Porto, se tivesse sido advogado como o curso de Direito apontava. Fiz o estágio de advocacia, mas entretanto havia guerra no Ultramar e fui chamado para fazer serviço militar e passei na tropa três anos e meio. É uma situação que os jovens, hoje, não experimentam. E isso modificou a minha vida porque quando acabei o serviço militar era muito difícil iniciar uma carreira em advocacia e resolvi vir para Lisboa, onde obtive um lugar no Gabinete de Estudos e Planeamento dos Transportes Terrestres. Por isso, aquilo que era suposto ser a trajectória lógica não aconteceu. E depois as oportunidades que foram surgindo, se algum mérito eu tive, foi não recusar desafios mesmo que parecessem muito difíceis e com algum risco. Sempre trabalhei muito. Acho que fui um aluno razoável no liceu e na faculdade. Mas não fui só bom estudante, fui também presidente do Teatro em Coimbra. Portanto, sempre procurei outras actividades que me alargaram horizontes culturais e humanos, e algumas coisas vieram ter comigo. E é por isso que costumo dizer que a minha vida é metade de sorte e metade de teimosia.

 

Inês - Em relação às bolsas de estudo atribuídas aos jovens do ensino secundário, os alunos bolseiros acabam por manter algum tipo de ligação com a Fundação mesmo depois da bolsa?

Os alunos bolseiros, quer os do ensino secundário, do superior ou doutoramento, mantém uma ligação muito próxima com a Fundação. De vez em quando há reuniões e o facto de terem sido bolseiros da Fundação é um factor de coesão. Aliás, na nossa Newsletter reservamos sempre uma página para os nossos bolseiros e isso também é uma maneira de tornar conhecido o trabalho que cada um está a desenvolver e a ligação à Fundação. E também é um exemplo para futuros bolseiros conhecerem o que alguns conseguiram com as bolsas de estudo que a Fundação lhes deu.

 

Ana Catarina - Que futuro prevê para a Fundação Calouste Gulbenkian?

A Fundação Gulbenkian, de acordo com a vontade do fundador, é uma instituição perpétua. O que filosoficamente é um conceito ao mesmo tempo desafiante e preocupante, porque trabalhar para a eternidade, sendo todos nós mortais, implica criarmos condições para aqueles que nos sucederem poderem continuar a obra da Fundação. Eu creio que a Fundação tem uma base financeira muito sólida, tem recursos humanos muito qualificados, é parceira de muitas instituições nacionais e estrangeiras que constituem também um estímulo permanente para as nossas actividades e defrontamos uma sociedade onde os desafios não escasseiam. Eu apontaria dois: a relação do Homem com a Natureza, no sentido de continuarmos a viver de uma forma sustentável neste Planeta; e a questão da convivência entre culturas e religiões, que é o grande desafio dos tempos modernos. Portanto, eu diria que em relação ao futuro da Fundação ela deve procurar continuar a estar à altura dos enormes desafios que a sociedade contemporânea representa.



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