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Imagina poder marcar um número de telefone na própria camisa ou entrar dentro da tua televisão. São estas as realidades que a Y-Dreams está a ajudar a construir. António Câmara, um dos seus fundadores e actual director executivo, abraça com paixão este projecto e é um profundo conhecedor das oportunidades e desafios do mercado global.
Vencedor do Prémio Pessoa em 2006, acredita que o futuro está na criação de novas empresas pelos jovens.
Alexandre Coelho (AC) – A Y-Dreams conquistou mercados além fronteiras. Como avalia as diferenças entre a procura de produtos e serviços da empresa no mercado português e no estrangeiro?
Na área de projectos nós não sentimos grandes diferenças entre o mercado português e o mercado europeu. Há substanciais diferenças no Brasil, é um mercado muito mais próximo do mercado norte-americano do que o europeu. E há diferenças culturais. Na Europa tem que haver, normalmente, um grau de profundidade que muitas vezes não é necessário noutras partes do mundo, onde tem de haver um grau de divertimento que muitas vezes na Europa não é bem visto. Em relação aos produtos, hoje em dia são globais e quando se desenha o produto tem que se perceber que não se pode ir contra limitações culturais de vários países. Portanto, na área de produtos as diferenças culturais têm de estar incorporadas, na área de projectos é substancialmente diferente. Nós fazemos muitos projectos na área cultural, para lojas e centros de empresas e são projectos em que a interacção é muito longa, em que as diferenças culturais vêm ao de cima. Noutro tipo de produtos, e nós já fizemos muitos jogos, sobretudo jogos móveis de muito pouco tempo, a diferença cultural esbate-se.
DC – Novas tecnologias, interactividade, design, programação... sendo engenheiro civil o que é que o fez optar pela sua área actual?
Bem, quando eu escolhi Engenharia Civil não havia estas áreas (risos). Na altura o que eu escolhi foi a área em que Portugal era mais forte. Quando acabei o curso percebi que cá ainda estava em alta, mas os outros países já tinham feito todas as infra-estruturas. Quando fui estudar para os Estados Unidos percebi que a Engenharia Civil era um campo já ultrapassado. O futuro eram computadores e ambiente e eu escolhi os dois. Mudei para o que se chamava na altura Engenharia de Sistemas e para Ambiente. Depois optei, finalmente, por Engenharia do Ambiente, porque hoje também há uma enorme mudança em relação ao meu tempo e vemos isso nesta empresa.
TE – 'Casual day, every day'. As grandes empresas portuguesas com quem competem são muito formais. Essa formalidade é exagerada? Com esse ambiente informal, chegaram mais longe...
Eu não posso dizer que chegamos mais longe, ainda somos uma pequena empresa. Nós temos é um potencial de explodir e transformarmo-nos numa grande empresa. Nós, logo no início, tivemos uma rival com quem competíamos claramente e podíamos ganhar, a Tom Tom. E hoje estamos num mundo em que uma das empresas que está a surgir é a Plastic Logic. Qualquer uma delas vale 10 mil milhões de euros. Em Portugal, dez mil milhões de euros vale a EDP ou talvez a PT e pouco mais. Nós achamos que temos o potencial de um dia ser uma empresa ao nível das maiores empresas portuguesas e com as maiores margens de lucro. Mas, neste momento, ainda somos uma empresa pequena. Trabalhamos no Silicon Valley onde ninguém usa gravata, as pessoas vão de calções e de chinelos para o trabalho. Mas a formalidade em Portugal é absolutamente exagerada e não serve rigorosamente para nada.
DC - Eu li que antigamente não gostava de telemóveis... É irónico a empresa ter entrado nesse mercado ou já fazia parte dos planos?
Ainda não gosto, ainda é uma seca ser interrompido todo o tempo (risos). Nós trabalhávamos em rádio virtual, em voos sobre terrenos em larga dimensão e o que nós gostávamos era de fazer voos projectados em ecrãs gigantescos. Foi irónico percebermos que não havia mercado para os ecrãs gigantescos, mas havia imenso mercado para os ecrãs minúsculos. E, portanto, convertemo-nos, adaptámo-nos e tivemos de aprender do zero. Não havia computação móvel nas faculdades, o que aconteceu aqui é que as pessoas tiveram de aprender a programar tudo de raiz e começar a perceber o que ia ser um telemóvel. E hoje o mundo dos telemóveis é curioso, porque está numa mudança total que começou na Apple com o i-Phone, com quem nós trabalhamos, e que veio baralhar aquilo que era entendido por telemóvel. Eu um dia, se calhar, vou gostar mesmo de telemóveis, porque vai haver dezenas de desenvolvimentos nos próximos anos.
AC – A Y-Dreams já explorou a área dos jogos. Porque abandonaram esse mercado?
O mundo dos jogos acabou para as pequenas empresas europeias quando entraram as empresas americanas. Os americanos estavam atrasados na área móvel, mas quando chegaram, as firmas como a Electronic Arts têm os direitos de inúmeras marcas, não só para telemóvel, como para consolas e todas as plataformas. E esses direitos são caríssimos. Uma empresa, para sobreviver no mundo móvel, tem de ter à volta de 60 marcas e tem de as colocar no mundo inteiro. Cada jogo custa à volta de 25 milhões e não temos capacidade financeira para competir e por isso desistimos. Por exemplo, o Grand Theft Auto foi programado por vários portugueses, alguns tinham saído daqui, e é o jogo que mais vende no mundo. Nós temos o know how, não temos é capacidade de investimento, ninguém que ponha 25 milhões de euros num jogo e se arrisque a falhar. Obviamente há firmas a fazer jogos, mas é num modelo diferente.














