Sábado, 04 de Fevereiro de 2012

Última actualização:16:52 GMT

Hi5: forumestudante MySpace: forumestudante External Link: facebook.com/pages/FORUM-ESTUDANTE/314359796460 Twitter: forum_estudante External Link: www.forum.pt/index.php?format=feed&type=rss
Estás aqui: Estudantes Perguntas tu O terriano

O terriano

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF
( 1 Voto )
Indíce do artigo
O terriano
O acesso a Medicina devia ser…
Os nossos repórteres de serviço:
Todas as páginas

fnobre_05

Em 30 anos de missões humanitárias Fernando Nobre já percorreu 75 países que o fazem aspirar a um passaporte com nacionalidade “terriana”.

O fundador e presidente da AMI acredita ainda que um bom médico não tem de ter 19 valores a tudo, até porque, a ser assim, ele mesmo nunca teria sido médico e Egas Moniz nunca teria ganho o Prémio Nobel de Medicina.


fnobre_01

Cláudia Silva (CS): Por que decidiu ser médico?

Sempre quis ser médico, desde a minha mais tenra infância. Quando tinha 15/16 anos ainda pensei em seguir belas-artes, mas o sonho da Medicina permaneceu e foi-se consolidando, porque também fui conhecendo a vida de alguém que se transformou no meu ídolo – o Doutor Alberto Schweitzer, que foi para África em 1913 e lá morreu, em 1965. Nunca pensei em ser outra coisa que não médico.

CS: Como nasceu a AMI e qual o seu principal objectivo?

A AMI nasce da minha vontade de trazer para Portugal uma instituição humanitária semelhante àquela que eu conheci e onde era administrador – os Médicos Sem Fronteiras (MSF). Fundei a AMI em Dezembro de 1984, com o objectivo de enviar equipas médicas para os países mais carentes. Desde então a AMI foi evoluindo e, até hoje, já actuámos em cerca de 65 países. A este primeiro pilar da intervenção juntou-se um pilar social (temos actualmente 11 centros sociais a funcionar no país), há meia dúzia de anos lançámos o pilar ambiental e, ultimamente, um quarto pilar, que é talvez aquele que estou a fazer convosco – o pilar “alertador de consciências”, porque após 30 anos de missões humanitárias em todo o mundo, penso ter acumulado alguma experiência de vida e isso faz com que eu esteja permanentemente a falar para estudantes.

Fátima Campos (FC): Nunca se sentiu frustrado por tantas vezes apelar, infrutiferamente, a que se sobreponha o “humanamente correcto” ao “politicamente correcto”?

É evidente que há momentos de grande frustração, porque quando se começa a caminhada que eu comecei, na altura não sabia que ela me ia engolir por completo – exercia a minha profissão de cirurgião, era assistente da faculdade… Desde que fiz 50 anos, não faço outra coisa, a AMI foi-me engolindo por completo. Passada uma geração, vejo que o meu sonho era outro, tanto no que diz respeito a desafios humanitários, como na actual crise económico-financeira e social, como em questões ambientais. Considero que a maioria da minha geração se acomodou e, a partir de um dado momento, desvirtuou o conceito de liderança. Portanto, tenho grandes frustrações, sim, mas também tenho grandes satisfações, devo dizer… Quero ser optimista para a juventude (risos). 

FC: Ter nascido em Angola e ter passado uma parte da sua vida em África alterou a forma como olha para a sociedade?

Indiscutivelmente. África é o continente onde eu passei os meus primeiros 15 anos e, evidentemente, isso deu-me uma sensibilidade particular sobre os temas do subdesenvolvimento, da exclusão e da pobreza, porque também digo, tive a sorte de ter uma mãe extremamente sensível que sempre nos habituou a vê-la a recolher crianças desfavorecidas e a levá-las para casa, a dar-lhes a nossa roupa, trocá-las e depois pô-las em escolas. De um lado estão os genes, do outro lado há um exemplo de vida que temos à nossa volta e a isso acresce a nossa própria experiência. Nós somos o resultado de tudo isso. 

 

 “Neste sistema eu não teria feito Medicina”

 

Pedro Cortez (PC): Que pensa da polémica das médias altíssimas para os candidatos aos cursos de medicina do nosso país? Um bom médico tem de ter 19 a tudo?

Absolutamente não e já o disse publicamente. Quando a Faculdade de Medicina de Lisboa me atribuiu o Doutoramento Honoris Causa, tive ocasião de dizer que foi um erro tremendo isso que aconteceu no nosso país, porque o nosso único Prémio Nobel da Medicina, Egas Moniz, entrou com média de 14, por isso não é preciso 19 valores para lá chegar. Por outro lado, costumo dizer que eu mesmo era aluno de 17/18 valores e neste sistema eu não teria feito Medicina. Pugno pelo sistema que conheci na Bélgica, um sistema que permitisse que todos os estudantes, imaginemos, com média a partir de 13/14 valores, pudessem aceder ao curso de Medicina e que o 1º ano fosse um ano de triagem, em que todos fossem avaliados com os mesmos professores e com as mesmas matérias, porque o sistema actual é muito díspar: em função das notas que se dão nas escolas e dos regulamentos especiais que criam muitos subgrupos sem razão de ser. Dê-se a oportunidade a todos de seguirem o seu sonho, como se passou comigo. Isto foi um erro tremendo e o país está a pagá-lo caro, tanto mais que agora é preciso ir buscar médicos ao Uruguai e ao Chile, porque não os há. Temos uns 3 mil jovens pela Europa fora e até por Cuba e a maioria desses jovens não vai voltar a Portugal, porque entretanto construiu laços afectivos. O país desperdiçou muitos jovens da máxima mais-valia com este sistema completamente errado e não vejo por que é que não se corrige isso rapidamente.

PC: Com 4 filhos, a AMI, a vida académica, os livros que escreve e as associações que preside, qual o segredo para a gestão seu tempo?

É dormir muito pouco, tentar ser rápido e andar muitas vezes cansado. Raramente me deito antes da meia-noite, uma da manhã e acordo sempre às 5h da manhã e às vezes às 4h. Já me aconteceu chegar à AMI às 4:30h da manhã. Tomo um banho, visto-me e vou, porque é aí que eu vou escrever as minhas conferências, vou tentar alinhavar os livros e as aulas que também dou em vários sítios. Depois há os filhos e há a mulher, que é preciso também cuidar, e por isso só há uma maneira de conciliar tudo, que é tirar horas ao sono, porque não sou nenhum super-homem. (risos).

 

“Ser-se médico é antes de mais ter a vontade de se pôr ao serviço dos outros para a aliviar sofrimento, tendo a perfeita noção de que não se é Deus e de que os doentes podem morrer.”



Comunidade Forum

 
Estatísticas
Utilizadores registados
: 16585
Grupos criados
: 260
Discussões
: 460
Álbuns de fotografias
: 475
Fotografias
: 3660
Vídeos
: 2952
Boletins
: 383
Actividades
: 41263
 

 
Forum Estudante - 20Yrs
Share/Save/Bookmark