
Já em 1857, Camilo Castelo Branco escreve que “O amor é uma luz que não deixa escurecer a vida”.
Ao longo dos tempos, desde a Grécia antiga até aos dias de hoje, o amor está continuamente presente na vida do Homem. É um sentimento que nos acompanha desde o momento que nos estamos a formar dentro da barriga da nossa mãe. É, possivelmente, o primeiro sentimento que temos enquanto seres vivos. Apenas isto descreve a importância do amor na nossa vida.
O amor sempre suscitou curiosidade naqueles que o experienciaram. Muitos o descrevem como um misto de emoções fortes que conduzem para uma ligação praticamente inquebrável. Mas apesar de tudo, sempre foi difícil pôr em palavras aquilo que é verdadeiramente o amor. Camões fê-lo dizendo que este é “um fogo que arde sem se ver” ou “um contentamento descontente”, e todas estas expressões metafóricas aproximam-nos da realidade do amor. Todavia, a explicação concreta daquilo que ele é, está ainda por chegar.
Enquanto que os poetas e escritores tentam traduzi-lo através de rimas ou adjectivos e os cinematográficos arriscam descrevê-lo através de grandes momentos épicos, nós vamos abordá-lo de uma forma biológica.
Será talvez um pouco ousado dizer que o destino do ser humano é “amar, amar perdidamente” – mas tudo indica que os nossos instintos biológicos estarão programados para encontrar a nossa alma gémea.
O amor pode ser visto como o ponto para onde convergem todas as nossas forças e resulta da acção de certas substâncias químicas denominadas por hormonas. São elas as responsáveis pelo aparecimento das sensações e dos sintomas que associamos ao amor – os sintomas de estar apaixonado.
Para que uma relação se inicie é necessário haver um reconhecimento mútuo e sexual entre sujeitos da mesma espécie e este mecanismo dá-se através da acção das feromonas. Estas moléculas odoríferas são portanto, as primeiras a intervir e têm a capacidade de transportar a informação sobre os nossos desejos sexuais e os atributos do nosso sistema imunitário, promovendo a aproximação entre indivíduos. São elas as responsáveis pela tal química incompreensível e assim, explicam o porquê de nos podermos sentir atraídos por uma pessoa que, racionalmente, não nos chamaria tanto à atenção e explica também a “repulsa” por outras que, com todo o uso da razão, consideramos “melhores partidos”.
A fim de melhorar a compreensão do desenvolvimento de uma relação amorosa divide-se esta em três fases distintas.
A primeira fase, também chamada como “fase do desejo” é onde a influência das hormonas se começa a fazer sentir. Nesta fase existe uma elevada concentração de estrogénio e testosterona no sangue pelo que se dá um impulso sexual, os desejos começam a despertar e sente-se uma necessidade (inconsciente) de ir à procura de alguém que os satisfaça. É aqui que os sintomas se revelam: quando o corpo começa a sofrer uma agitação constante, fazendo com que as mãos suem, os joelhos tremam, é um indício de que a outra pessoa não nos é indiferente.
Quando todos estes sintomas se conjugam e constroem um sentimento a pessoa avança para a segunda fase, também denominada por “fase do amor romântico”. Esta transição só é possível devido à intervenção da feniletilamina, hormona com efeito estimulante e anti-depressivo que explica toda aquela alegria excessiva que se apodera do corpo durante os primeiros tempos de relação e que nos permite afeiçoar a alguém pelo bem-estar que esta nos proporciona. É nesta fase que a paixão se acende e é também aqui que nos apaixonamos. Esta etapa transporta uma variedade de hormonas que afecta a nossa maneira de agir e que nos faz viver situações, por vezes, embaraçosas. Os principais compostos químicos intervenientes nesta fase e que explicam certos acontecimentos como a perda de apetite, a falta de sono e a ansiedade, são a norepinefrina, a dopamina e a serotonina. A norepinefrina corresponde a um estimulante natural que influencia o humor, a ansiedade, o sono e a alimentação. Uma vez que a sua produção depende da produção de adrenalina, quando estas se concentram no sangue criam-se sensações de euforia e exaltação que prolongam a emoção de paixão intensa.
A serotonina está associada à fixação pelo parceiro, pelo que baixos níveis desta hormona no sangue, podem provocar um comportamento obsessivo-compulsivo, fazendo com que um individuo não consiga viver a sua rotina sem a presença constante da pessoa que ama.
Por fim, a dopamina é responsável por gerar as sensações de bem-estar e conforto entre os indivíduos e o seu papel é importante na estimulação do circuito de recompensa do cérebro. Os seus efeitos no cérebro são análogos aos da cocaína. A expressão “O amor é uma droga” acaba por ser literal.
Finalizamos com a terceira fase, a “fase de ligação”, onde o amor deixa de ser louco e cego e passa a assumir um papel mais consciente. É nesta fase que se consolida a união das duas pessoas. Nesta altura, os níveis de feniletilamina são reduzidos o que explica a dificuldade que muitos indivíduos têm em alcançar esta fase, pois bastantes pessoas ficam viciadas na sensação que essa hormona lhes proporciona. A oxitocina e a vasopressina destacam-se nesta etapa assumindo um papel relevante na ligação do casal. A oxitocina provoca um aumento da confiança nos outros facultando um comportamento interpessoal menos agressivo.
A vasopressina, conhecida como a “hormona da fidelidade”, assume uma função importante no sistema nervoso central, nomeadamente na regulação da conduta sexual e na afectividade (mais evidente no sexo masculino). Esta hormona (e neurotransmissor) está relacionada com a necessidade que o indivíduo sente de ter uma relação estável, logo os homens que têm baixos níveis de vasopressina no sangue têm tendência a ser infiéis pois ficam “viciados” no cocktail hormonal típico do início de uma relação não sentindo falta da ligação a alguém. Uma curiosidade é a de que o álcool inibe a produção desta hormona tornando os homens mais susceptíveis ao comportamento infiel, como se pode observar na quantidade de vezes que urinamos após a ingestão de bebidas alcoólicas pois esta hormona é também a ADH (hormona anti-diurética) responsável pela reabsorção de água nos rins. Quando inibida, urinamos quatro vezes mais líquidos do que ingerimos. No entanto, nós, seres humanos, dotados de razão, conseguimos manipular os nossos impulsos e instintos biológicos de tal maneira que raramente agimos unicamente sob a sua condição, mas a infidelidade não é um desses casos!
A oxitocina é a hormona do amor, fortalecendo os laços entre a mãe e o bebé quando esta o amamenta, aumentando a sua produção quando abraçamos alguém (daí ser denominada a “hormona do abraço”) e promovendo a ligação entre o casal durante a relação sexual, uma vez que o orgasmo estimula a sua produção.
Concluímos que existe uma grande influência hormonal atrás de uma relação amorosa, dos seus “sintomas” e de todos os sentimentos e sensações misteriosos e agradáveis que esta nos proporciona.
O amor é intemporal, atravessa todas as estações, todas as guerras, todas as mudanças. É capaz de passar por tempestades quando no fundo não semeia ventos. Consegue abraçar o Mundo. “É tão bom morrer de amor e continuar vivendo” – Mário Quintana.
Artigo escrito no âmbito da disciplina de Área de Projecto, pelas alunas Madalena Santos, Maria Gouveia e Maria Pires, do 12º ano da Escola Secundária de São João do Estoril.
Este projecto foi acompanhado por especialistas, nomeadamente psicólogos e um professor de química molecular.








muito interessante, agora já percebemos porque é ficamos doidinhos...










