
Vejo-me ao espelho, e não sei quem vejo. Numa neblina, surge uma figura que eu reconheço, de tanto que me olho ao espelho na vã tentativa de me encontrar. Cabelos escuros, ondulados e despenteados, uns olhos meigos, mas que não conseguem esconder um quê de melancolia, um nariz desproporcional a todos os restantes elementos, e uns lábios pequenos e inofensivos.
Uma aura indefensível recobre todo aquele momento nostálgico de inútil compreensão falhada. Ouço uma voz, “Ana?”, chamou minha mãe. Respondo mecanicamente ao chamamento. Um nome que me distingue de tantos milhões, no entanto não me diz quem sou, mas eu sou a Ana. Quem é a Ana, afinal?
Supostamente serei eu, uma de muitas Anas, mas de acordo com o que todo mundo proclama, não existem duas pessoas iguais, por isso, sou uma Ana, diferente de todas as restantes. Mas em que é que isso me ajuda a perceber quem sou? Uma figura num espelho, um nome? O que somos nós afinal? Quando pensamos em alguém, surge-nos, esbatidamente, o seu semblante…É isso, que representamos para o mundo, para as pessoas? Rostos, nada mais? Então como saberemos, quem somos, quem representamos para nós próprios?
Resignamo-nos ao somatório de tudo o que realizamos durante a nossa fugaz existência neste universo, e não a tudo o que idealizamos e desejamos fazer com a nossa desvalorizada vida. Não somos mais do que acções abstractas que realizamos para os outros, pois tudo realizado no nosso profundo secretismo, mantém-se desconhecido para a multidão que cobre este mundo, e, portanto, é inexistente. Mantemo-nos inexistentes, se não agirmos para o mundo, não seremos ninguém, e jamais nos poderemos conhecer. Restar-nos-á o pobre reconhecimento que fazemos de nós próprios, com uma identificação que nos foi transmitida durante a nossa infância, agora abandonada. Somos uma imagem, um nome…



















