
Foi uma noite que começou ainda antes de ser noite.
Não havia o som da rádio, não havia o cheiro de torradas acabadas de fazer, muito menos a claridade de uma página branca aberta de um blog. Não havia luz. E eu, assustada, sentei-me numa cadeira e fechei os olhos por um segundo. Passei a mão por uma mesa e senti-me como uma criança a descobrir um novo mundo - um mundo de sensações que eu nunca me tinha apercebido quando a luz dominava os meus olhos. Mas esta era outra luz, uma luz natural, uma mesa lisa de madeira, o barulho de abrir uma janela, o vento a sussurar... E ouvi passarinhos, o seu canto dirigia-se a mim de uma forma sincera. Até eu me surpreendi comigo mesma, eu estava diferente! Apalpei o tecido da minha camisola de algodão e reparei na sua suavidade, reparei o quanto a minha pele era macia e na cor tão castanha dos meus cabelos. A vida ficou diferente e eu fiquei diferente também, pois tudo o que eu dava como conhecido, agora mudara e eu logo me aventurei a descobri-la.
Às sete horas, decidi colocar velas pela casa, acompanha pelo único som dos meus passos. Assim que comecei a acendê-las, toda a casa foi inundada por pequenas chamas vivas, que iluminaram a minha noite, às quais, mais tarde, se juntaram as estrelas do céu. Achava eu que, sem luz, tudo seria mais complicado, mas acabei por descobrir a simplicidade da vida.
"Bip bip bip bip biiip", soou o meu telemóvel, acudindo por bateria, deixando-me completamente sozinha. Por momentos, mergulhei em pensamentos de medo, de pânico, de solidão: não tinha computador, rádio e muito menos telemóvel! Como iria sobreviver? Depois o vento soprou aos meus cabelos castanhos, acalmando-me e foi aí que perguntei a mesma: desde quando me tornei tão dependente da tecnologia? Desde quando deixei de ver o mundo pelos meus olhos e não pela voz de outras nas notícias??
Foi esta a noite tão escura que me fez ver a luz, a luz deste mundo que me rodeava e que eu não conhecia. Ironicamente, tentei usar o que me estava a acontecer como metáfora para a minha relação com o mundo. Como mundo, eu entendo os outros, são eles que fazem o mundo à minha volta, que constituem a minha sociedade e que a desenvolvem. Eles vivem, eles constróiem-na de dia para dia (ou destróiem-na). Pois que sentido faria se eu vivesse
sozinha, aqui? O mundo não seria mundo, seria eu, só e assustada, tal como na minha primeira noite às escuras, quando descobri a beleza da simplicidade e do verdadeiro, do não-construído ou fabricado, de tudo o que não precisa de pilhas para funcionar. E a pergunta surgiu: será que eu vejo a verdadeira luz do mundo, dos outros? Porque será que eu só vejo aqueles que gostam de estar em grupo, de sair, de ir a festas, que têm roupas bonitas, telemóveis modernos e unhas arranjadas? Não deveriam esses ser diferentes por, de certa maneira, se estarem a destacar?
O problema é que, hoje em dia, são todos assim e a diferença passa a ser rara, quase inexistente. Todos querem ser assim: estereótipos, tipo Morangos Com Açúcar, obcessivos com o próprio bom corpo, afundado em marcas e rótulos sociais, numa tentativa de afirmação, como plástico, meio indiferentes, meio ocos, difundidos com o resto de uma geração materialista. E quando olhamos realmente para essas pessoas, sem essa luz superficial, ofuscante e brilhante, o que vemos? Nada, rigorosamente nada! São seres fracos e dependentes, sem autonomia para defenderem algo de que gostam e sem futuro. Porém, ao generalizar, não reconheço aqueles que são algo, são pessoas humanas com dons escondidos, como o dom da palavra, dom de escrever, dom de cantar, dom de dançar, de desenhar, de ajudar – tantos dons mal desenvolvidos ou escondfidos, reprimidos até, que deveriam poder falar por si e não estar escondidos por detrás de um casaco da última tendência e maquilhagem, por exemplo. Essa é a luz que os outros vêem. Então, qual é a luz verdadeira de cada um? E como a podemos ver? Penso que a resposta passa por tentar conhecer a pessoar, porque, se repararmos, ninguém se conhece verdadeiramente – somos amigos, grandes amigos, porque nos divertimos, porque tirámos umas fotografias, porque foi uma boa noite iluminada por risos e música alta. Mas sabem que mais? A minha foi ainda melhor, pois foi finalmente iluminada pela verdadeira luz, a da simplicidade, a da natureza, a da beleza, aquela que nasceu antes de Thomas Edison, e que, nesta noite às escuras, nasceu para mim e iluminou-me até agora e espero que continue.
Podem perguntar-se como jantei, o que fiz para me divertir, como sobrevivi... No entanto, eu já deixei de acreditar apenas no que me dizem, há que experimentar para confirmar, porque eu sou a única pessoa capaz de sentir uma experiência feita por mim, e tu, tu também! A experiência sensorial realizada por cada um de nós dá-nos, obviamente, resultados diferentes. Logo, se queres realmente saber como encontrei a luz verdadeira do mundo, faz a tua experiência: desliga a luz por uma noite e verás...



















