Neste espetáculo, cresce-se em cena

  

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Montanha Russa continua a sua digressão pelo país, ficando em cena no Teatro Nacional São João, no Porto, entre 31 de maio e 10 de junho. O Espetáculo criado por Isabel Barahona e Miguel Fragata assume-se como um “mergulho na adolescência”, depois de uma fase de pesquisa que envolveu o contacto com cerca de 600 jovens.

A mensagem está colocada na bilheteira e deixa um aviso (obrigatório por lei): “Neste espetáculo, fuma-se em cena e é utilizada luz estroboscópica”. Se os cigarros atrás do pavilhão e as luzes psicadélicas são ambientes que facilmente se ligam à vida adolescente, “Montanha Russa” procura mais do que a mera associação fácil, evitando o lugar comum, asseguram os seus criadores. “Sabíamos que seria necessário fazer pesquisa, para fugir do cliché e dar a conhecer a adolescência na primeira pessoa”, explica Miguel Fragata.

Como tal, o processo de criação do espetáculo começou em setembro de 2016 e envolveu diferentes formas de contacto com adolescentes. Para além de visitas a escolas, foram realizadas entrevistas personalizadas e promovidos workshops de criação de diários ou de composição musical. No total, foram envolvidos cerca de 600 jovens com idades compreendidas entre os 13 e os 19 anos.

A pesquisa não terminou, contudo, na adolescência do presente. Esta preparação incluiu também a recolha de 20 diários escritos durante esta fase da vida, independentemente da época em que se inseriram. Uma das conclusões interessantes deste contributo, destaca Inês Barahona, foi a constatação de que “as questões que se colocam são as mesmas, mesmo que o contexto se altere”. A necessidade de definição identitária, o confronto com pressões internas e externas ou a procura de uma voz são alguns dos exemplos de sentimentos comuns, que os criadores procuraram integrar no espetáculo.

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Créditos: Filipe Ferreira

Quando a adolescência sobe ao palco
São quatro relatos de adolescentes, separados no espaço e no tempo da ação, que conduzem o enredo de Montanha Russa. Um trajeto que leva o público a lugares muito variados – há, por exemplo, espaço para a felicidade das primeiras vezes, para o confronto com o próprio corpo, para a incansável busca de um sentido ou para as exigências de quem é obrigado a crescer.

Em comum, as histórias assentam na ideia de transformação. Um crescimento em palco que se sente no próprio tom do espetáculo, salienta Miguel Fragata: “a estética do espetáculo foi construída no sentido de ser uma viagem – começa num ambiente mais infantil e progride para um tom mais pesado”.

Se a adolescência é uma viagem pessoal e irrepetível, com infinitas variações, poderemos encontrar algo de comum entre elas? Ainda que existam muitas adolescências – “tantas quanto as pessoas”, sublinha Inês Barahona – a pesquisa dos criadores mostrou que ela tem uma intensidade própria: “os adolescentes estão por inteiro nas coisas, não há nenhuma reserva ou compromisso a não ser consigo próprios”. “É por isso que é tão difícil. E tão bom”, acrescenta.

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Créditos: Filipe Ferreira

A música das emoções
No caminho entre estas quatro adolescências fragmentadas, a música assume o papel de elo de ligação. Montanha Russa define-se como “um espetáculo musical” e inclui vários momentos em que as melodias ocupam o centro do palco. Este conjunto de temas vai da musicalidade mais infantil de um piano tímido à guitarra que se distorce de revolta. Para alcançar esta plasticidade musical, “Montanha Russa” conta com a colaboração de Manuela Azevedo, Hélder Gonçalves e Miguel Ferreira, dos Clã, bem como de Nuno Rafael.

A componente musical foi mesmo “um ponto de partida” na conceção do espetáculo, assegura Miguel Fragata: “a música tem um papel muito grande na adolescência, ao ser um eco de emoções, sentimentos e estados de espírito”. A escolha da colaboração com os Clã, acrescenta, deve-se à forma como a banda corporiza “um pensamento leve, com ironia e um certo distanciamento” que é próximo da sensibilidade da adolescência.

 

E esta, revela Inês Barahona, pode ser uma sensibilidade algo distante dos palcos – vários estudos indicam o público adolescente como não sendo “o público habitual do teatro”. Ao se encontrarem “numa travessia entre o antes e o depois”, acrescenta, os adolescentes acabam por, muitas vezes, “não se identificar com o que está em cena”, por assistirem a produções que se dirigem a um público infantil ou adulto. Nesse sentido, “Montanha Russa” assume também o desafio e missão de cativar este público em particular.

O apoio do pequeno comité
No verão de 2017, Alice Rodrigues, de 16 anos, inscreveu-se num workshop de escrita e composição musical, a conselho da mãe. A formação realizava-se no Teatro Nacional D. Maria II, contava com a participação de Capicua e Pedro Geraldes (Linda Martini) e era promovido no âmbito da fase de pesquisa de “Montanha Russa”.

Alguns meses mais tarde, Alice foi contactada pelos criadores do espetáculo. O objetivo era convidá-la a integrar um grupo de apoio à produção e criação. Este grupo – o petit comité, formado por 15 adolescentes – funcionou como “um diapasão” conta Inês Barahona, ao permitir, por exemplo, perceber quais os momentos com que os adolescentes mais se identificam. “Permitiu afinar alguns detalhes, tendo em conta a sensibilidade do público adolescente”, reforça Miguel Fragata.

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Créditos: Filipe Ferreira

Agora que o espetáculo chega aos palcos, Alice Rodrigues confessa estar surpreendida: “não esperava que os nossos contributos, enquanto adolescentes, fossem tão bem aceites e tão levados a sério”. Muitas das considerações do grupo foram levadas em conta, assegura, por exemplo, no que toca à representação de “temas mais polémicos”, como o suicídio, a perda da virgindade ou os primeiros cigarros, onde existiu a preocupação em garantir que “ninguém se sinta ofendido ou ridicularizado”.

Para a estudante, a experiência foi “muito gratificante”, ao ter a oportunidade de conhecer “o trabalho envolvido na construção de um espetáculo, como a fase intensa de pesquisa”. Compreender a profundidade dos temas foi outra das grandes mais-valias, explica, ao poder conhecer pontos em comum com adolescentes de outras épocas: “Os nossos pais e avós sentiram coisas semelhantes ao que sentimos hoje em dia, só que noutra realidade”.

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Créditos: Filipe Ferreira

“E agora?”
A adolescência pode ser “a terra de ninguém”, realçam os criadores. É-se demasiado velho para ser criança, é-se demasiado novo para ser adulto. Nesta travessia entre o antes e o depois, grande parte das tensões podem mesmo nascer da necessidade “de saber estar aqui e agora”, explica Inês Barahona, acrescentando: “é por isso que terminamos o espetáculo no presente”.

É no presente que a história termina, quando um dos personagens escala os obstáculos e se agarra às ambições para, num live simulado, relatar os seus sentimentos ao público: “Não sei como cheguei aqui. (...) Não sei como isto continua. Não me interessa. Eu podia ficar aqui para o resto da vida. E agora?”.