Leiria-In #2: primeiro o vidro, depois a água

  

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A Marinha Grande foi o palco do segundo dia de Leiria-In: da visita a quatro empresas da área do fabrico de vidro, à passagem por um centro tecnológico, sem esquecer a importância da memória histórica. Pelo meio, tempo ainda para mergulhar.

A temperatura do forno chega aos 1500 graus Celsius. No total, são gastos, todos os meses, mais de 400 metros cúbicos de gás. “Um bocadinho mais do que a fatura lá de casa”, comentou o Engenheiro Químico da Crisal, Bruno Santos, dirigindo-se aos participantes da Leiria-In.

A conversa ocorreu durante a visita às empresas vidreiras da Marinha Grande que abriu as atividades do segundo dia da Semana da Indústria. Durante toda a manhã, os cinquenta estudantes do secundário puderam ficar a conhecer todo o processo de produção de vidro, da entrada dos materiais até à saída das encomendas, em quatro empresas diferentes: Crisal, Santos Barosa, Gallo Vidro e BA Vidros.

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Na Crisal, recordou Bruno Santos, os fornos não param: estão em atividade 24 horas por dia, 365 dias por ano. De resto, uma paragem nos fornos seria uma má notícia, causando prejuízos materiais. Como tal, acrescentou o técnico, a manutenção é feita preventivamente, “em operações que são difíceis e que têm de ser realizadas por equipas especializadas e experientes”.

Desde o processo de entrada da matéria prima – das quais se destaca a areia sílica – ate à saída do produto final para o cliente, são envolvidas várias equipas e departamentos especializados. O planeamento “é rigoroso e atempado”, destacou Bruno Santos”. “O trabalho de vidro é um trabalho de equipa”, reforçou.

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Na receção aos participantes, o Diretor de Recursos Humanos da Crisal, Arlindo Duarte, destacou que esta visita seria uma “ajuda para formar as vossas opções de futuro”: “muitas vezes, não há noção do que é a indústria – sejam oberservadores e tirem as vossas dúvidas”.

Do presente ao passado
Ainda antes de almoço, os participantes visitaram o Centro Tecnológico da Indústria de Moldes, Ferramentas Especiais e Plásticos (CENTIMFE), também situado na zona industrial da Marinha Grande. O objetivo, explicou a técnica de formação deste centro, Ana Carreira, passou por “mostrar os tipos de tecnologias utilizadas na indústria”, nomeadamente a de prototipagem rápida que, "cada vez mais, é utilizada pelas empresas”, acrescentou.

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Depois de almoço, tempo para conhecer a história e o presente da indústria do vidro nesta região, com visitas ao Museu do Vidro e ao Museu do Aço. Tudo começou em 1748, quando a Real Fábrica de Vidros da Coina se mudou para a região da Marinha Grande. A justificação prendeu-se com a abundância de matérias-primas, especialmente a madeira proveniente do Pinhal de Leiria.

A partir daí, explica a reponsável pelo Museu do Vidro, Tânia Rosa, a cidade desenvolveu-se “em torno da fábrica”, fixando trabalhadores, dando origem a novas indústrias de moldes e, mais recentemente, de plástico. “Em última análise, tudo se desenvolveu devido à atividade desta fábrica”, reforçou.

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Os participantes visitaram as exposições permanente e temporária do Museu do Vidro, no antigo Palácio Stephens

Ainda hoje, ressalva Tânia Rosa, a região mantém “uma relação forte com o vidro”. Diariamente, são produzidas na Marinha Grande cerca de 10 milhões de garrafas que mais de 600 camiões transportam. Contudo, essa relação pode mudar no futuro: “há hoje uma geração muito ligada aos moldes”, recorda a responsável. É neste ponto que, sublinha, espaços como o Museu do Vidro cumprem uma missão essencial, “ao transmitir a memória coletiva da cidade”.

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Já no Museu do Aço, o objetivo passou por mostrar aos participantes “a história dos moldes plásticos”, explicou o colaborador da CEFAMOL, António Rato – um percurso que começa, inevitavelmente, “nos moldes de vidro”. Depois da implementação da indústria vidreira, o plástico chegaria na década de 1930 a Portugal e à Marinha Grande.

O percuso histórico passou pelos moldes de compressão e chegou à recente introdução da informática. Um dos objetivos, destacou António Rato, é que os participantes do Leiria-In possam ver “a complexidade do trabalho que envolve uma peça que, ao primeiro olhar, é simples”. A fechar a visita, o guia destacou as oportunidades de futuro existentes neste sector: “a indústria 4.0 já é praticada aqui”.

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Ainda antes de jantar, tempo para uma visita ao Mariparque, em Vieira de Leiria. Durante duas horas, a ordem foi mergulhar e escorregar. 

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A vida de um industrial
Quando se dirigiu aos cinquenta estudantes do secundário presentes na audiência, Alberto Ribeiro descreveu-se com 12 anos: “fui convidado para trabalhar na indústria de vidro. E comecei, desde logo, com a paixão de trabalhar e me ligar à indústria”.

O objetivo seria cumprido. Hoje, 38 anos depois, António Ribeiro é fundador e proprietário da Ribermold – empresa especializada no fabrico de moldes de alta precisão. O segundo dia da Leiria-In encerrou com uma conversa com este empresário, numa partilha da sua história de vida e das principais marcas do seu percurso pessoal e profissional.

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Os moldes surgiram cedo, na vida de António Ribeiro. Aos 14 anos, depois de dois anos no fabrico do vidro, António Ribeiro aceitou o convite da Sonema. A indústria vidreira, destacou, tinha a particularidade de se fundar na repetição de tarefas. “Como qualquer empreendedor, monotonia não faz parte do vocabulário”, esclareceu.

Depois de aceite o convite, chegaria a certeza: “aprendi, desde logo, que os moldes me fascinavam”. Para António Ribeiro, cada molde é “um puzzle composto por centenas de peças diferentes entre si, na sua essência”. A ligação aos moldes nunca mais se quebraria. Criada por António Ribeiro em 1987, a Riberbold exporta, hoje, para mais de 20 países de quatro continentes.

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Na conversa com os participantes, o empresário destacou algumas características que considera relevantes no seu percurso: “sempre tive gosto pelo que faço, espírito de sacríficio e resiliência”. Por outro lado, António Ribeiro destacou a importância de “ter um plano B, ser assertivo e parar para pensar”.

Durante a conversa, os participantes do Leiria-In puderam ainda colocar as suas questões a António Ribeiro. Detalhes sobre o funcionamento atual da Ribermolde e sobre os primeiros tempos da empresa foram alguns dos temas mais focados.